Uma crítica ao conceito de Realidade Virtual pela filosofia hegeliana e cultura material

Fonte: Tecmundo (07 jun. 2016).

Yuri Campagnaro¹

Nesta pequena resenha, faço uma crítica ao conceito de “realidade virtual”, tal como entendida e praticada dentro da arte digital, sob o ponto de vista da filosofia hegeliana e das teorias da cultura material. Como afirmam Daniel Miller e Don Slater, os termos “ciberespaço” e “virtualidade” focam em maneiras nas quais novas mídias parecem capazes de constituir espaços separados do resto da vida social (a vida real, ou offline), espaços em que novas formas de sociabilidade e identidade emergiriam. A noção de virtualidade tem um papel chave, pois o termo sugere que a mídia pode significar modos de interação e de representação que adicionam “espaços” ou “lugares”, os quais os participantes podem tratar como se fossem reais. Ao focar na virtualidade como característica definidora de muitas mídias da Internet, e depois movendo-se para noções como “ciberespaço”, começamos de uma suposição de que o virtual é oposto ao real[i].

 Nesse sentido, as formas digitais propagam uma ilusão de imaterialidade. Uma das principais consequências disso é como objetos e tecnologias ofuscam seus próprios papeis na nossa socialização, deixando menos claro como nosso ambiente é estruturado materialmente e como isso nos cria como seres humanos. Dessa forma, para Miller e Horst, não devemos ser fascinados pela qualidade virtual do que estudamos, precisamos, ao contrário, investigar como essa virtualidade é produzida materialmente, o que se expressa de três maneiras fundamentais: na infraestrutura digital e da tecnologia; no conteúdo digital; e no contexto digital. A imaterialidade também possui outro fundamento, ancorado no dadaísmo e na arte conceitual contemporânea, os quais propõem uma desmaterialização do objeto de arte em termos estéticos. Existe uma concepção do digital que defende uma ruptura profunda com a lógica estética das técnicas analógicas, porém, conforme Broeckmann defende, existe um contínuo estético entre essas experiências, de modo que a artemídia não deveria ser discutida em separado da prática da arte contemporânea em geral[ii].

Para explicar como esse conceito de imaterialidade é problemático, é preciso ir aos fundamentos da filosofia dialética. Para Hegel, somos dialeticamente os produtos e produtores de processos históricos, de modo que nossa humanidade não é anterior ao que criamos. O que é a priori é o processo de objetivação, que dá forma e que produz o que aparece a nós como sujeitos autônomos e objetos autônomos, levando-nos a pensar em termos de uma pessoa usando uma coisa ou uma instituição. Nesse nível de filosofia, é errado falar de sujeitos e objetos, pois são meras aparências que emergem do processo de objetivação como um processo histórico, de modo que não há formas pré-objetivadas[iii].

Tomando essa identidade última entre sujeito e objeto, é possível considerar que os objetos também possuem ideologias próprias. “Já nos afastamos da ideia confortável de que começamos com pessoas fazendo coisas que as representam ou representam os outros. Agora está claro que, ao contrário, na cultura material, estamos interessados também, e na mesma medida, em como as coisas fazem as pessoas”[iv]. Coisas e pessoas são dois lados de um mesmo processo, fazem-se reciprocamente, mas, na tradição filosófica e acadêmica em geral, inclusive na arte, as concepções predominantes defendem uma separação entre sujeito atuante, de um lado, e objeto passivo, de outro. Nessa perspectiva, fica difícil entender como objetos do nosso cotidiano criam subjetividades. Não se trata apenas de ver os traços de humanidade contidos nos objetos, mas também ver como os objetos atuam, liberando e restringindo nossas relações sociais.

Dessa forma, a materialidade é um aspecto essencial para análises sociais. Mesmo o conceito de imaterialidade não consegue existir de modo puro, pois sempre sentimentos e conceitos que defendem a imaterialidade são expressos por algum meio bem material. Daniel Miller cita os exemplos religiosos. Mesmo para o transcendentismo budista, há a presença necessária das fisicalidades de estátuas, signos, templos, vestimentas, etc.. Mas é justamente quando essa materialidade é ignorada que ela exerce seu maior poder. Segundo Miller, os objetos são importantes não porque sua fisicalidade é evidente, mas precisamente porque não os vemos. Quanto menos nos damos conta deles, com mais força eles podem determinar nossas expectativas e assegurar um comportamento normativo. “They determine what takes place to the extent that we are unconscious of their capacity to do so[v].

Essa operação se aproxima da definição de ideologia de Slavoj Zizek. Em seu texto “Como Marx inventou o sintoma” (1996[vi]), Zizek defende que a ideologia não é um desvio do saber, mas se encontra no campo do fazer. Sabemos, mas agimos como se não soubéssemos. Durante esses momentos, não sabemos que sabemos, simplesmente agimos. Trata-se dos “unknown knowns”. Dessa maneira, a ideologia opera como um agir inconsciente que nos interpela. Essa concepção coloca a ideologia não como uma falsa consciência ou como uma distorção do pensamento, o que se coaduna, segundo Zizek, com a metodologia psicanalitica e marxiana simultaneamente, que evitam o fascínio de um suposto conteúdo, um segredo atrás da forma, mas centram seu foco no segredo da própria forma, seja a forma do sonho em Freud ou a forma da mercadoria em Marx. Com isso, a ideologia é tirada de um campo abstrato e imaterial e colocada de maneira dinâmica no circuito entre o imaterial e o material, pois “‘Ideológica’ não é a ‘falsa consciência’ de um ser (social), mas esse próprio ser, na medida em que ele é sustentado pela ‘falsa consciência’”[vii].

Pensando sobre a realidade virtual, o debate trazido por Zizek não recai, portanto, no pólo do virtual, mas no da realidade, ou mais corretamente, do Real. Não existe uma realidade pura, distorcida por um véu da ideologia, que seria possível de retirar em operações de desmistificação. É impossível apreender o Real de maneira direta, de modo que a fantasia, o véu, ou a ideologia, é a maneira através da qual nos relacionamos com ele. Ao tirarmos o primeiro véu, apenas encontraríamos um segundo véu, como numa boneca russa. Dessa forma, a proposta de uma separação entre real e virtual, que tenta ver um essencialismo da realidade, é um equívoco.

Miller concordaria com essa ideia, embora parta de outros pressupostos. Para ele, as pessoas não são nem um pouco mais mediadas pelo surgimento das tecnologias digitais. Na introdução da TV, falava-se similarmente numa perda de autenticidade e no fim de uma sociabilidade verdadeira. Isso é totalmente contrário ao que é a própria antropologia, que postula que todas as pessoas são igualmente culturais, como produtos do processo de objetivação. Ou seja, não existe uma pureza humana não-mediada, de modo que uma interação face-a-face é tão culturalmente influenciada quanto uma comunicação mediada digitalmente. O que ocorre é que as molduras nas interações pessoais são tão efetivas que não as vemos. Dessa forma, o mundo digital tem uma natureza mediada e emoldurada tanto quanto o mundo não-digital. Quando se usa o termo virtual em oposição ao termo real, fetichiza-se a cultura pré-digital como um lugar de autenticidade[viii]. Ao invés de ver os mundos pré-digitais como menos mediados, precisamos estudar como o surgimento de tecnologias digitais criou a ilusão de que eles eram. Não somos mais mediados, mas igualmente humanos em cada arena diferente de comportamentos emoldurados, que traz diferentes aspectos de nossa humanidade[ix]. “Unless technology can shift the meaning of humanity, technology alone will not make the rest of us more humane[x].

Referências:

[i] MILLER, Daniel; SLATER, Don. The internet: an ethnographic approach. Oxford: Berg, 2000, p. 4.

[ii] BROECKMANN, Andreas. Imagem, processo, performance, máquina: aspectos de uma estética do maquínico. In: Diana Domingues. (Org.). Arte, Ciência e Tecnologia: passado, presente e desafios. São Paulo: UNESP, 2008, p. 262

[iii] MILLER, Daniel. Materiality: an introduction. In: MILLER, Daniel (Ed.). Materiality. Duke University Press. Durhan and London. 2005, p. 9-10.

[iv] MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre cultura material. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2013, p. 66.

[v] Idem item iii, p. 5.

[vi] ZIZEK, Slavoj. Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

[vii] Idem item vi, p. 306.

[viii] MILLER, D.; HORST, H. The digital and the human: a prospectus for digital anthropology. In: HORST, H.; MILLER, D. (ed.) Digital anthropology. London: Bloomsbury. 2012, p. 12-13.

[ix] Idem item viii, p. 15.

[x] Idem item viii, p. 13.

¹Doutorando em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
CAMPAGNARO, Yuri. Uma crítica ao conceito de Realidade Virtual pela filosofia hegeliana e cultura material. In: Nuevo Blog, 09 dez. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/12/08/uma-critica-ao-conceito-de-realidade-virtual-pela-filosofia-hegeliana-e-cultura-material/. Acesso em: ??.

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