Ensino de literatura e racismo: é preciso superar a inocência

Fonte: Foto de Anastasia Shuraeva no Pexels

Jéssica Parizotto¹

Há mais de 30 anos, o crítico literário Antonio Candido proferiu, a pedido da Universidade Mackenzie de São Paulo, uma palestra sobre direitos humanos e literatura. O texto que posteriormente foi publicado em livro sob o nome de “Direito à Literatura” traz uma reflexão interessante e ainda muito pertinente sobre o que consideramos um direito humano e sobre quem pode consumir e fazer literatura.

É evidente que qualquer um sabe elencar coisas que são direitos humanos: a vida, a saúde, a alimentação, a moradia, etc. Contudo, Antonio Candido estende o debate para a arte, coisa que muitas vezes não parece ter ligação com o direito.

Nesse ponto as pessoas são frequentemente vítimas de uma curiosa obnubilação. Elas afirmam que o próximo tem direito, sem dúvida, a certos bens fundamentais, como casa, comida, instrução, saúde, coisas que ninguém bem formado admite hoje em dia que sejam privilégios de minorias, como são no Brasil. Mas será que pensam que o seu semelhante pobre teria direito a ler Dostoiévski ou ouvir os quartetos de Beethoven? Apesar das boas intenções no outro setor, talvez isso não lhes passe pela cabeça. E não por mal, mas somente porque quando arrolam os seus direitos não estendem todos eles aos semelhantes[i].

Infelizmente, nesse sentido, parece que pouco avançamos desde que o autor proferiu sua palestra. A literatura ainda é um campo dominado por homens brancos e ricos. Segundo Dalcastagnè (2012[ii]), 72,7% de todos os romances publicados pelas principais editoras brasileiras entre 1999 e 2004 foram escritos por homens. Mais homogênea ainda é a cor desses homens: 93,9% são brancos. Assim, fica claro que o campo do literário é um espaço de disputa e de poder. Está em jogo quem pode falar, de onde pode falar e o que pode falar. Para Foucault (1996[iii]) mais do que ser um objeto de luta política, o discurso (e aqui pensando especialmente o discurso literário) é “aquilo por que, pelo que se luta”.

Para além da produção e consumo do literário, o ensino de literatura também é um dos campos de domínio da colonialidade. Sendo esta entendida no sentido que propõem Ramón Grosfoguel (2018, s.p.[iv]).

Contrário ao pensamento de que o racismo é uma ideologia ou uma superestrutura derivada das relações econômicas, a ideia de “colonialidade” estabelece que o racismo é um princípio organizador ou uma lógica estruturante de todas as configurações sociais e relações de dominação da modernidade. O racismo é um princípio constitutivo que organiza, a partir de dentro, todas as relações de dominação da modernidade, desde a divisão internacional do trabalho até as hierarquias epistêmicas, sexuais, de gênero, religiosas, pedagógicas, médicas, junto com as identidades e subjetividades, de tal maneira que divide tudo entre as formas e os seres superiores (civilizados, hiper-humanizados, etc., acima da linha do humano) e outras formas e seres inferiores (selvagens, bárbaros, desumanizados, etc., abaixo da linha do humano).

Nesse sentido, o ensino de literatura que ainda é calcado na historiografia literária baseada no cânone, continua a levar para dentro da escola os ideias de cultura, beleza e arte eurocêntricos, deixando de lado, e muitas vezes relegada ao campo do folclore, a contribuição de afro-brasileiros, africanos e indígenas para a construção da literatura nacional.

Para Le Goff (1990[v]), os documentos – e aqui entende-se como documento, os textos escolhidos para compor o cânone literário nacional – não são neutros. É preciso ir além da análise deles como um simples retrato estático de um período de tempo.

O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento verdade. Todo o documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo[vi].

Em 2003, após anos de luta do Movimento Negro, foi promulgada a Lei 10.639 que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana em todas as etapas da educação básica. Apesar de constituir um avanço no reconhecimento de que o racismo é uma realidade brasileira e de que é preciso lutar contra ele, sobretudo no âmbito escolar, há ainda muito por fazer. Para José Rivair Macedo, 

[…] se desejarmos ver efetivada uma educação antirracista, não bastará incluir fatos, contextos e questões históricas alusivas ao continente africano. Será preciso recolocarmos em discussão nossa própria concepção de história ao confrontar o modelo “normal” da história ocidental, eurocêntrica e cristã que nos é ensinada com a história dos africanos no continente e na Diáspora negra. Trata-se de colocar em discussão modelos explicativos do passado e, ao fazê-lo, trazer à tona a questão do racismo epistemológico[vii].

Dessa forma, ainda que a partir da promulgação da Lei as escolas tenham adaptado o seu currículo e materiais didáticos tenham sido desenvolvidos, é preciso repensar a própria forma de constituição do conhecimento.

Para Nilma Lino Gomes (2019[viii]) a superação desse quadro deve vir através de uma pedagogia emancipatória como a proposta por Boaventura de Souza Santos. Segundo Santos (1996[ix]) é preciso propor certo conflito nas práticas pedagógicas a fim de “tornar vulnerável e desestabilizar os modelos epistemológicos dominantes e para olhar o passado através do sofrimento humano, que, por via deles e da iniciativa humana a eles referida, foi indesculpavelmente causado.” Só assim, criaremos nos estudantes e docentes uma postura de inconformismo que pode nos levar a “um relacionamento mais igualitário e mais justo que nos faça apreender o mundo de forma edificante, emancipatória e diversa culturalmente”[x].

Por fim, é possível concluir que para que o ensino de literatura se liberte da colonialidade e do racismo é preciso abandonar a ingenuidade na análise e uso do cânone literário, como propõe Le Goff (1990[xi]). É preciso ter em mente o que afirma a pensadora negra Jurema Werneck (2003[xii]): “a era da inocência acabou, já foi tarde.”

Referências:

[i] CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2011, p. 174.

[ii] DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Vinhedo: Horizonte, 2012.

[iii] FOUCAULT, Michel. Ordem do discurso (A). São Paulo: Edições Loyola, 1996.

[iv] GROSFOGUEL , Ramón. Para uma visão decolonial da crise civilizatória e dos paradigmas da esquerda ocidentalizada. In: Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

[v] LE GOFF, Jacques. História e memória. São Paulo: Editora Unicamp, 1990. E-book.

[vi] Idem item v, p. 475.

[vii] MACEDO, José Rivair. História da África: questões epistemológicas, conceituais e didático-pedagógicas acerca do seu ensino. In: KOMINEK, Andrea Maila Voss; VANALI, Ana Christina (org.). Roteiros Temáticos da Diáspora: caminhos para o enfrentamento do racismo no Brasil. . Porto Alegre: Editora Fi, 2018. p. 24.

[viii] GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador. Editora Vozes. Edição do Kindle, 2019.

[ix] SANTOS, Boaventura de Sousa. Por uma pedagogia do conflito. In: SILVA, L.H. et al. (orgs.). Novos mapas culturais, novas perspectivas educacionais. Porto Alegre: Sulina, 1996.

[x] Idem item ix, p. 52.

[xi] Idem item v.

[xii] WERNECK, Jurema. A era da inocência acabou, já foi tarde. In: Organização Ashoka Empreendedores Sociais e Takano Cidadania (Orgs.). Racismos Contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano Editora. 2003.

¹Mestranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (PPGTE-UTFPR).

Como citar:
PARIZOTTO, Jéssica.Ensino de literatura e racismo: é preciso superar a inocência. In: Nuevo Blog, 01 fev. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/02/01/ensino-de-literatura-e-racismo-e-preciso-superar-a-inocencia/ . Acesso em: ??

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