A representação do trabalhador em Roniwalter Jatobá

Fonte: Foto de Kateryna Babaieva no Pexels

Janete Ferron¹

O propósito deste texto é refletirmos acerca da linguagem e do texto literário produzido pelo autor contemporâneo Roniwalter Jatobá. Entendemos a linguagem na perspectiva adotada por Mikhail Bakhtin, ou seja, como um processo de interação, visto que é por meio da interação entre os sujeitos que se constitui a linguagem. Nessa perspectiva, a linguagem é concebida como um processo contínuo de criação que se efetiva na interação verbal[i]. Para Mikhail Bakhtin, a linguagem é abordada como um fenômeno histórico e dialogicamente constituído a partir das interações sociais — entre os sujeitos. Assim, segundo Bakthin (2004[ii]) o indivíduo emprega a linguagem não só para expressar o pensamento ou para transmitir conhecimentos, mas também para agir, atuar sobre o outro e sobre o mundo, de maneira concreta e dinâmica. Bakhtin entende a linguagem como ação, como um processo interativo, como uma prática social na qual o sujeito, ao falar ou escrever, revela em seu texto aspectos sociais, políticos, econômicos.

A linguagem como interação verbal, na perspectiva bakhtiniana, é concebida como um lugar de interação humana em que os usuários da língua atuam como sujeitos que ocupam lugares sociais e “falam” e “ouvem”, ou seja, é no fluxo da interação verbal que a palavra se concretiza como signo ideológico, que se transforma e ganha diferentes significados de acordo com o contexto em que ela surge. Para Bakhtin, o diálogo é naturalmente um fenômeno próprio a todo discurso. O discurso de um sujeito se encontra com o discurso de outrem, sendo tomado por um vasto espaço de embate e tensão. Portanto, Bakhtin amplia o significado de diálogo, caracterizado como discursos que se entrelaçam para produzir sentido e não apenas atrelado à ideia de um diálogo face a face entre interlocutores:

O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer natureza que se apresenta[iii].

Assim, para Bakhtin, as produções escritas constituem igualmente um elemento da comunicação verbal. O texto escrito é discursivo/dialógico na medida em que é atrelado a várias vozes sociais, pois, segundo o autor, num texto existem ao menos duas vozes, a do sujeito que escreve e outra que o autor parodia. Segundo ele,

[…] nossos enunciados (que incluem as obras literárias), estão repletos de palavras dos outros, […]. As palavras dos outros introduzem sua própria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos, reestruturamos, modificamos[iv].

Dessa maneira, o texto literário se perpetua num entrelaçar de vozes. “Além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado e criticado”[v], uma vez que o discurso escrito não exclui a participação do leitor, visto que, “toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém”:

Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia sobre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor[vi].

Para Bakhtin (1997), a utilização da palavra na comunicação verbal é sempre marcada pela individualidade e pelo contexto. E ainda segundo o autor, a palavra existe para o locutor sob três aspectos:

[…] como palavra neutra da língua e que não pertence a ninguém; como palavra do outro pertencente aos outros e que preenche o eco dos enunciados alheios; e, finalmente, como palavra minha, pois, na medida em que uso essa palavra numa determinada situação, com uma intenção discursiva, ela já se impregnou de minha expressividade[vii].

Tendo em vista esses dois últimos aspectos, “palavra do outro” e “palavra minha”, podemos considerar, conforme Bakhtin, que a palavra é expressiva, mas esta expressividade não pertence à própria palavra, ela nasce no ponto de contato entre a palavra e as circunstâncias de uma situação real, que se atualizam através do enunciado individual. Neste caso, a palavra expressa o juízo de valor de um homem individual e se apresenta como um aglomerado de enunciados. Portanto, a linguagem, enquanto processo de interação, não é neutra, mas carregada de sentidos. Na linguagem enquanto processo de interação os usuários da língua expressam suas ideias, pensamentos, intenções, experiências e podem influenciar o outro, alterando suas representações da realidade e da sociedade e o rumo de suas ações.

Em permanente diálogo com a realidade social, o escritor mineiro Roniwalter Jatobá é um dos pioneiros no Brasil a problematizar literariamente o trabalho e o trabalhador, dando nome e voz aqueles que, normalmente, fazem parte apenas de uma estatística na sociedade[viii]. Nos seus contos, Jatobá nos apresenta um painel dos trabalhadores, trazendo não apenas o seu contexto de trabalho, mas o discurso individual deles. Em “Contos antológicos”[ix], o autor sintetiza a trajetória de pobres trabalhadores que, em sua maioria, migram do interior brasileiro rumo a grandes centros, como a cidade de São Paulo, em busca de melhoria de vida.

Na galeria das muitas personagens dos contos, Jatobá nos apresenta todas pelo nome e nenhum sobrenome:  Zélia, Jacinto, Zefim, Santina, Tonico, Zuleide, Germano, Damião etc. Todas elas representando os trabalhadores brasileiros e a mão-de-obra barata. Temos, então, o trabalhador comum que não pôde estudar e tampouco possui alguma formação ou especialidade. Dedicam-se, então, pelo menos, oito horas por dia a trabalhos embrutecedores, dentro de montadoras de automóveis, construção civil, fábricas, empresas, lojas, casas (são domésticas, contínuos, moços e moças de recado), todos trabalhando diuturnamente – isso quando conseguem um emprego. No conto “A mão esquerda”, por exemplo, Roniwalter Jatobá nos apresenta exatamente este contexto. Natanael, filho de Elias e Marta, o protagonista da breve narrativa, nasceu em uma pequena e interiorana cidade e migrou rumo a São Paulo. Conseguiu um emprego que garante apenas o salário para pagar as despesas e necessidades mínimas. Ele perde dedos de uma das mãos durante a jornada de trabalho. Natanael escreve e envia cartas para a família fantasiando que, na grande cidade, tem uma vida digna, mas a sua realidade não passa de um inferno permanente.

Natanael é apenas uma dessas personagens representadas por Jatobá o qual luta dignamente por salários indignos, pois não tem outra opção. Nenhum desses sujeitos ficcionais, a exemplo de muitos da realidade, consegue e nem jamais conseguirá economizar dinheiro para investir em qualquer projeto, bem pessoal ou patrimônio. As necessidades mínimas já consomem tudo o que eles recebem. Comida, transporte e problemas inesperados “ceifam” todo o “tudo” que eles ganham.

As personagens, condenadas à vida, como o próprio autor escreve, estão inseridas em contexto rude, difícil. Nasceram pobres, não terão direito a estudo, nem a relações com pessoas que poderão abrir portas e oferecer oportunidades. Esses sujeitos são obrigados a morar em casas minúsculas, na periferia, distantes do local de trabalho. Jatobá, muitas vezes, descreve as personagens como “sonadas”, pois atravessam o dia com sono já que não podem deixar o corpo deitado por muito tempo em cima de um colchão de péssima qualidade, sobre uma cama, em um subúrbio qualquer. O receio de vir a ser demitido, que é uma questão constante para quem faz parte das classes economicamente inferiores, também é tema dos contos. O autor nos apresenta as nuances de quem faz parte desse contexto e o discurso particular de cada indivíduo – representando a própria realidade[x].

Por fim, podemos afirmar que os contos de Jatobá trazem para o leitor, o discurso daqueles trabalhadores que passam a maior parte da existência dentro de fábricas, barracões, ônibus, com apenas um dia de folga por semana, sem opção de lazer. Trabalhadores para quem a vida se resume em sofrer e a sonhar com o prêmio da loteria, para quem sabe, mudar-lhes “a sorte”. Verifica-se, também, que as construções discursivas acerca do trabalho, apontam para uma visão comum da realidade: a de que o “trabalho dignifica o homem”. A ideia de que o trabalho, mesmo trazendo sofrimento, é melhor do que ser vadio, desempregado. Ao narrar, esse contexto, o autor retrata não somente o mundo do trabalho, como dá voz ao próprio trabalhador e o leitor tem, então, a visão daquele que vivencia tudo.

Referências:

[i] FANINI, A. M. R. “Contribuições da Análise Dialógica do Discurso para a pesquisa acadêmica”. Polifonia, Cuiabá-MT, v. 26, n.43, p. 01-357, jul. set., 2019.

[ii] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. 11. ed. São Paulo: Hucitec, 2004.

[iii] Idem item i, p. 123.

[iv] BAKHTIN, Mikhail. “Os gêneros do discurso”. In: Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. revisão da tradução Marina Appenzellerl. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 314.

[v] Idem item ii.

[vi] Idem item i, p. 113.

[vii] Idem item iii, p. 313.

[viii] MONTEIRO, A. L. B. ; FANINI, A. M. R. “Trabalho e afeto na obra Alguém para amar a vida inteira, de Roniwalter Jatobá”. Form@re. Revista do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, v. 7, p. 128-141, 2019. 

[ix] Seleção de contos organizada e apresentada por Luiz Ruffato (2009).

JATOBÁ. Roniwalter. Contos antológicos. São Paulo: Nova Alexandria, 2009.

[x] Idem item vii.

¹Doutoranda pela Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade da Universidae Tecnológica Federal do Paraná (PPGTE- UTFPR). Professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
FERRON, Janete. A representação do trabalhador em Roniwalter Jatobá . In: Nuevo Blog, 05 fev. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/02/03/a-representacao-do-trabalhador-em-roniwalter-jatoba/. Acesso em: ??

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