As tensões que vêm redesenhando o ensino de Administração no século XXI

Amanda Albuquerque Gross¹

Para a antropóloga e historiadora brasileira Lilia Schwarcz (2020[i]), o século XX se encerrou de fato com o início da pandemia da Covid-19. Se o século anterior foi marcado por uma utopia tecnológica e desenvolvimentista, a crise sanitária, por sua vez, explicitou as fraturas sociais, econômicas, ambientais e morais em todo o planeta, demonstrando a grande fragilidade de nossa sociedade tecnológica, globalizada e hiper-conectada diante de um vírus. Além disso, a digitalização das interações humanas se acentuou e novas formas de aprender e trabalhar se desenvolveram (claro, ainda a avaliar os resultados desses novos modelos, suas potencialidades e limitações.)

No campo do ensino em Administração, mesmo antes da pandemia, já podíamos observar algumas mudanças e tensões geradas pelos desafios econômicos, ambientais, políticos e tecnológicos que o século atual nos coloca. Em resposta, por todo o mundo, novos modelos educacionais, novas tecnologias e novos currículos, incluindo temas como ética, impacto social e ambiental dos negócios, foram introduzidos em programas de graduação e pós-graduação[ii].

Outra marca deste século é o acirramento da competitividade internacional entre as escolas de negócio devido, por um lado, aos modelos disseminados por organizações acreditadoras e rankings internacionais e, por outro, pela transformação digital que também   atinge o campo educacional. As diretrizes das acreditadoras e os rankings internacionais vêm impondo novas estratégias educacionais e formativas aos alunos e aos corpos docentes, assim como, um realinhamento nas estratégias de pesquisa e publicação[iii].  Já a transformação digital, que foi acelerada pela pandemia, pode reduzir a pressão financeira sobre as escolas e programas[iv], mas exigem o desenvolvimento de novos modelos de negócios educacionais[v].

Do ponto de vista dos pesquisadores mais críticos do campo, há um forte questionamento sobre o papel das escolas de negócios em nossa sociedade e sua potencial cumplicidade com as crises globais que vivemos, sejam elas econômicas, sociais ou ambientais[vi]. Trabalhos recentes têm demonstrado como a disseminação das visões gerencialistas faz das escolas de negócio promotoras das ideologias corporativas à serviço dos interesses das elites globais, formando gestores focados apenas no lucro e no retorno aos acionistas[vii].

 Outro fenômeno que ganha força neste século é o debate epistemológico que tem emergido na sociedade como um todo e desafiado, também, o ensino em Administração[viii]. No campo da Administração, essa discussão começou ainda no século passado, quando Alvesson e Willmott (1992[ix]), por exemplo, questionavam a neutralidade da teoria da gestão e argumentavam que ela é demasiada potente com muitos efeitos na vida de toda a comunidade de empregados, consumidores e cidadãos. Já naquele momento, os autores argumentaram pela importância de abordar desigualdades de classe, raça e gênero na gestão e nas organizações, reduzindo o viés do “homem branco de classe-média” (adiciono “cis e heterossexual” para atualizar a discussão) sobre a teoria da gestão. Desde então, apesar dos avanços nessas discussões, elas ainda estão restritas ao grupo de pesquisadores críticos do campo. A educação de negócios mainstream segue centrada nas culturas anglo-saxãs, nos modelos lineares e evolutivos modernos de história e desenvolvimento, deixando de lado as abordagens holísticas, relacionais e processuais[x].

De fato, a discussão epistemológica toma o campo da educação como um todo[xi], uma vez que as modernas instituições de ensino ocidentais ainda reproduzem e legitimam o projeto colonial, suas formas de saber e de ser. A proposta de mudança tem sido reconsiderar os fundamentos epistemológicos e ontológicos a partir da perspectiva de uma crítica decolonial.  Diferentes perspectivas, como as epistemologias negras, indígenas, feministas e queer, serão fundamentais para desafiar o UNI-versalismo da UNI-versidade moderna, e conduzí-la a uma PLURI-versidade. Especificamente no campo do ensino e pesquisa em Administração, enfrentamos o desafio da “anglicização”, definindo a política de produção e publicação de conhecimento[xii]. Neste sentido, os procedimentos e requisitos de acreditação das escolas de negócio, acabam por valorizar pouco os desafios e saberes locais[xiii]. Por outro lado, da parte dos discentes, há estudos que demonstram seu crescente interesse em trabalhar promovendo o bem-estar econômico e a justiça social, para além dos resultados financeiros das organizações[xiv].

Destaco aqui duas provocações recentes que foram feitas no campo e para o campo de ensino e pesquisa em Administração. Ao abrir a reunião anual de 2013 da associação internacional Academy of Management, Adler (2014[xv]) fez um apelo aos estudiosos das organizações para que pensassem fora das fronteiras das organizações e dos mercados livres do mundo capitalista. Mais tarde, outra provocação foi feita por Martin Parker, para quem as escolas de gestão estariam ficando aquém do ponto de “levar a sério o problema da organização”[xvi]. Ele entende que a crise nas escolas de negócios deve ser pensada em termos de nomeações, uma vez que o foco em palavras como “negócios”, “gestão” e “comércio” nos faz pensar diretamente em uma forma específica de organização: as corporações do setor privado (ou outras que são levadas a funcionar como elas, se pensarmos na expansão das lógicas neoliberais). Neste sentido, Parker propõe pensar em ‘Escolas de Organizar’, para dar conta de diferentes padrões de organizar-se, em diferentes tamanhos, culturas e temporalidades, pensando também fora das fronteiras do sistema capitalista e para além da reprodução do gerencialismo de mercado.

Diante de todas essas questões e das tensões políticas, econômicas e sociais que o século e a pandemia nos colocam, evito aqui fazer qualquer previsão sobre os futuros rumos do ensino em Administração. Também não se trata de apontar fortes tendências ou mudanças radicais, pois entendo que as mudanças se dão em outro ritmo e formato, conforme a realidade de cada escola. Quis aqui apenas apresentar algumas das forças que estão colocadas no tabuleiro e vêm redesenhando o ensino em Administração no mundo todo, conforme a literatura do campo que tenho analisado para o meu Doutorado. Acredito que cada escola, cada corpo docente e discente responderá à sua maneira e com seus recursos (materiais e intelectuais) aos desafios postos local e mundialmente. No entanto, não me parece possível, para as escolas de negócios, passar incólume por esses desafios[xvii].

Referências e Notas:

[i] SCHWARCZ, L. M. Quando acaba o século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

[ii] LAU, C. L. A step forward: Ethics education matters! Journal of Business Ethics, v.92, n.4, p. 565-584, 2010.

CULLEN, J. Responsible Management Education & Learning: A Systematic Review, Taxonomy and Research Agenda. In Academy of Management Proceedings (Vol. 2017, No. 1, p. 12316). Briarcliff Manor, NY 10510: Academy of Management, 2017.

WINKLER, R.; SÖLLNER, M. Unleashing the Potential of Chatbots in Education: A State-Of-The-Art Analysis. Academy of Management Proceedings. vol. 2018, n. 1, 2018.

CLARYSSE, B.; MOSEY, S.;  LAMBRECHT, I. New trends in technology management education: A view from Europe. Academy of Management Learning & Education, v.8, n.3, p. 427-443, 2009.

[iii] FRIGA, P. N.; BETTIS, R. A.; SULLIVAN, R. S. Changes in graduate management education and new business school strategies for the 21st century. Academy of Management Learning & Education, v.2, n.3, p. 233-249, 2003.

[iv] KAPLAN, A. A school is “a building that has four walls… with tomorrow inside”: Toward the reinvention of the business school. Business Horizons, v.61, n.4,  p. 599-608, 2018.

[v] GUILLOTIN, B.; MANGEMATIN, V. Authenticity-based strategizing: moving business schools beyond accreditations and rankings. Journal of Management Development, 2018.

[vi] PETTIGREW, A.; STARKEY, K. From the Guest Editors: The legitimacy and impact of business schools—key issues and a research agenda. AMLE (Special Issue), 2016.

MINOCHA, S.; REYNOLDS, M.; HRISTOV, D. Developing imaginators not managers–How to flip the business school model. The International Journal of Management Education, v.15, n.3, p. 481-489, 2017.

[vii] FLEMING, P.; OSWICK, C. Educating consent? A conversation with Noam Chomsky on the university and business school education. Organization,  v.21, n.4, p. 568-578, 2014.

GIUDICI, E.; DETTORI, A.; CABONI, F. Challenges of Humanistic Management Education in the Digital Era. In Virtuous Cycles in Humanistic Management (pp. 21-35). Springer, Cham, 2020.

MCLAREN, P. G. Strengthening capitalism through philanthropy: The Ford Foundation, managerialism and American business schools. Management Learning, 2019. 1350507619890094.

COTRONEO, M. M.; COSTA, P. A. Chilean management education: rhetoric of pragmatism, consumerism, individualism and elitism. Cadernos Ebape. br, v.8, n.2, p. 370-387, 2010.

NICOLINI, A. Qual será o futuro das fábricas de administradores?. Revista de Administração de Empresas, v.43, n.2, 44-54, 2003.

[viii] MURILLO, D.; VALLENTIN, S. The business school’s right to operate: Responsibilization and resistance. Journal of Business Ethics, v.136, n.4, p. 743-757, 2016.

[ix] ALVESSON, M.; WILLMOTT, H.. On the idea of emancipation in management and organization studies. Academy of management review, v.17, n.3, p. 432-46, 1992.

[x] CUMMINGS, S.; BRIDGMAN, T. The limits and possibilities of history: How a wider, deeper, and more engaged understanding of business history can foster innovative thinking. Academy of Management Learning & Education, v.15, n.2, p. 250-267, 2016.

COX, J. W.; HASSARD, J. From Relational to Relationist Leadership in Critical Management Education: Recasting Leadership Work After the Practice Turn. Academy of Management Learning & Education, v.17, n.4, p.532-556, 2018.

[xi] STEIN, S. Beyond higher education as we know it: Gesturing towards decolonial horizons of possibility. Studies in Philosophy and Education, v.38, n.2, p. 143-161, 2019.

[xii] BOUSSEBAA, M.; TIENARI, J. Englishization and the politics of knowledge production in management studies. Journal of Management Inquiry, 2019. 1056492619835314.

[xiii] DARLEY, W. K.; LUETHGE, D. J. Management and business education in Africa: A post-colonial perspective of international accreditation. Academy of Management Learning & Education, v.18, n.1, p.99-111, 2019.

[xiv] KORIS, R.; ÖRTENBLAD, A.; OJALA, T. From maintaining the status quo to promoting free thinking and inquiry: Business students’ perspective on the purpose of business school teaching. Management Learning, v.48, n.2, p. 174-186, 2017.

[xv] ADLER, P. S. Capitalism in question. Journal of Management Inquiry, v.23, n.2, p.206-209, 2014.

[xvi] PARKER, M. Towards an alternative business school: A school of organizing. In A Research Agenda for Management and Organization Studies. Edward Elgar Publishing, 2016, p. 150.

[xvii] Agradecimentos a Fernando Vianna pelo convite, aos colegas Marcelo Maia e Vinícius Galante pela leitura atenta com comentários e sugestões que só enriqueceram o texto, e ao Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Administração de Empresas da EAESP-FGV por todo suporte institucional à pesquisa que conduzo em meu Doutorado.

¹Doutoranda em Administração de Empresas na EAESP-FGV

Como citar:
GROSS, Amanda Albuquerque. As tensões que vêm redesenhando o ensino de Administração no século XXI In: Nuevo Blog, 24 fev. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/02/24/as-tensoes-que-vem-redesenhando-o-ensino-de-administracao-no-seculo-xxi/. Acesso em: ??

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