O documento-monumento e os organismos internacionais

Fonte: Foto de Sam Jean no Pexels

Gabriel França Sundin¹

O objetivo com este pequeno texto é traçar breves ideias a respeito do papel do documento na pesquisa científica, a forma de compreendê-lo e sua importância. Para alcançar este fim, trata-se de algumas concepções metodológicas sobre documento-monumento e sua expressão em documentos de orientações e diretrizes de organismos internacionais como o Banco Mundial, que têm, nesse formato, a execução e irradiação dos objetivos capitalistas no mundo, em especial aos países periféricos do capital.

Como afirma Luca (2012[i]), a institucionalização do saber histórico nos anos novecentos é composta por uma concepção de documento apenas como material escrito, os quais geralmente eram documentos oficiais do Estado. Esta ideia tem sua razão histórica ao compreender que é o momento de construção dos Estados Nacionais, portanto, desenvolve-se o campo da história (mas não apenas ele) e sua visão limitada de documento pelo objetivo de defesa e erigição destes Estados Nacionais, dando concretude à nação e construindo as ideias de lealdade e vínculo emocional dos sujeitos que habitavam-na.

Somado a isso, a escola metódica, de onde provêm estas primeiras concepções, parte da avaliação de seu campo do saber determinado pelos métodos e objetivos das ciências naturais, buscando os fatos objetivos e atestáveis[ii]. Nesse sentido, o documento escrito é o único material capaz de garantir a objetividade da compreensão histórica, pois seriam o meio em que as ideias e representações se apresentam à análise; superando a necessidade do uso dos recursos da imaginação e retórica.

De acordo com Le Goff (1990[iii]), a partir de 1920 e 1930, a escola de análise francesa procura superar esta visão limitada de documento, e propõe que o fazer histórico pode estar baseado em documentos escritos, mas também pelo não escrito, pelas relações materiais, pelas técnicas, pela arte etc. Mas ainda mesmo essa concepção mais crítica tem seus limites, por isso o autor propõe a noção de documento como monumento.

A origem da ideia de monumento estaria em ser algo que pode evocar o passado, se perpetuando, voluntária ou involuntariamente nas sociedades históricas. Por isso, nas palavras do historiador, “o documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias[iv]. A partir dessa compreensão propõe ainda que a análise do documento, enquanto monumento, não deve estar afastada do todo em que foi produzido; deve-se analisar as condições de sua produção, os objetivos e determinantes que o constituíram, quais os interesses e intencionalidades que carrega.

Avançando um pouco, ao analisar a metodologia de pesquisa da análise documental, Cellard (2008[v]) afirma que para a compreensão de um documento ressaltam-se alguns aspectos: o contexto político e econômico que o documento foi escrito; os autores, seu interesses e motivos que o levaram a escrever; a autenticidade e confiabilidade do texto; a natureza do texto; delimitar os conceitos-chave e a lógica interna do texto.

Estes pontos iniciais são sucedidos da análise propriamente dita do documento, no qual deve ser o momento de reunir as informações obtidas anteriormente, buscando uma visão de totalidade. Esse processo se inicia com uma intencionalidade, a partir do questionamento inicial que guia “a escolha de pistas documentais apresentadas no leque que é oferecido ao pesquisador”[vi]. Vê-se que essas concepções trabalhadas por Cellard (2008) refletem também algumas das ideias e compreensões de Jacques Le Goff, em especial da necessidade de analisar os documentos a partir de sua expressão concreta na totalidade social, os objetivos, interesses, poderes etc., envolvidos em sua construção.

Esta compreensão crítica e ampliada de documento fornece instrumentos essenciais nas análises dos documentos organizados e produzidos pelos organismos internacionais, e no caso do presente texto o Banco Mundial (BM). Surgido na década de 40, o BM passa a ganhar maior peso em especial nos anos 70, após a crise do petróleo, e a necessária readequação da dinâmica capitalista. Isso passará pela intervenção direta na organização do trabalho e do Estado, dando diretrizes que se enquadram na necessidade de maior endividamento dos países, através do pagamento da dívida pública[vii]. O Banco Mundial se coloca como “agenciador”, se torna o agente de controle, direcionando as políticas públicas e organização do trabalho de forma a garantir o pagamento da dívida pública, através da imposição das políticas neoliberais:

[…] abertura e privatização da economia, eliminação dos instrumentos de intervenção do Estado, equilíbrio orçamentário e liberação financeira, sobretudo a redução dos gastos públicos, sob a alegação de adequá-los aos novos requisitos do capital globalizado[viii].

É por meio das “orientações” e estudos que o BM fornece as diretrizes a serem implementadas pelos países, em especial da periferia do sistema, como o Brasil. Um exemplo pode ser visto nos anos 1990, em que é organizado e propagado o projeto “Educação para Todos”, em que, dentre inúmeras avaliações, reforçam a Teoria do Capital Humano e a ideia da educação como elemento central para redução das desigualdades, obnubilando as contradições do modo de produção capitalista[ix]. Ou então, mais recente, como mostra Sundin (2019[x]), em documento voltado para a juventude brasileira o BM naturaliza as contradições sentidas por essa parcela da classe trabalhadora e avança na defesa de propostas como a reforma trabalhista e reforma do Ensino Médio, reforçando a precarização do trabalho e educação dos trabalhadores em detrimento do aumento do lucro dos empresários.

Sob o falso argumento de serem apenas estudos científicos e neutros, os documentos produzidos pelo Banco Mundial, compreendidos na definição de documento-monumento de Le Goff (1990), vão para muito além de apenas “orientações”. Buscando entender quais são seus objetivos e interesses, de que forma e para quem foram produzidos, é possível perceber que os documentos conformam um método de direcionamento do capitalismo, em que as cartilhas devem ser seguidas a fim de manutenção da ordem social estabelecida. Por mais que baseadas em métodos dito científicos, seus interesses e implicações caminham na defesa do capital, do receituário neoliberal e manutenção das desigualdades de classe. Portanto, é preciso com que se reforce a criticidade ao analisar os documentos divulgados pelo Banco Mundial, e por organismos multilaterais de maneira geral, tendo em vista que sob o falso argumento da neutralidade se esconde a velha defesa do atual modo de produção.

Referências:

[i] LUCCA, Tania Regina. Práticas de Pesquisa em História. São Paulo: Contexto, 2020.

[ii] Idem item i.

[iii] LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990.

[iv] Idem item iii, p. 548.

[v] CELLARD, André. A análise documental. In: POUPART, Jean et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

[vi] Idem item v, p. 303.

[vii] MENDES SEGUNDO, Maria das Dores; JIMENEZ, Susana. O papel do Banco Mundial na reestruturação do capital: estratégia e inserção na política educacional brasileira. In: RABELO, Jackline; JIMENEZ, Susana; MENDES SEGUNDO, Maria das Dores (Org.). O movimento de educação para todos e a crítica marxista. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2015.

[viii] Idem item vii, p. 47.

[ix] FRERES, Helena; GOMES, Valdemarin Coelho; BARBOSA, Fabiano Geraldo. Teoria do Capital Humano e o reformismo educacional pós-1990: fundamentos da educação para o mercado globalizado. In: RABELO, Jackline; JIMENEZ, Susana; MENDES SEGUNDO, Maria das Dores (Org.). O movimento de educação para todos e a crítica marxista. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2015.

[x] SUNDIN, Gabriel França. O desenvolvimento da adolescência e juventude no capitalismo contemporâneo: a agenda do Banco Mundial para a juventude trabalhadora. Monografia (Departamento de Psicologia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1O9NfPfRVG07Aq21a0iqzRpTDqNNnWsbU/view

¹Mestrando em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:

SUNDIN, Gabriel França. O documento-monumento e os organismos internacionais. In: Nuevo Blog, 30 mar. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/03/30/o-documento-monumento-e-os-organismos-internacionais/ . Acesso em: ??

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