Epistemologia e Questões Raciais

Fonte: Foto de RF._.studio no Pexels

Mariana de Santana Lourenço¹

O presente texto tem por objetivo refletir sobre como as fontes de conhecimento também são um espaço de disputa no qual as práticas hegemônicas se perpetuam. Essa situação é aqui exemplificada a partir das discussões de Renata Santos, sobre o ensino da história da arte brasileira, somadas as reflexões de Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro e Grada Kilomba que também discorrerem sobres epistemologias e questões raciais, destacando a importância de descolonizar o conhecimento.

A epistemologia, aqui compreendida como a ciência de aquisição de conhecimento é o meio pelo quais se determinam os temas, paradigmas e os métodos para a produção de conhecimento, desse modo, limitando também quem pode produzi-lo. Em seu livro “Lugar de Fala”, Djamila Ribeiro (2019[i]) destaca o conceito de epistemologia. Com base em Lélia Gonzales, Ribeiro discute sobre como essa aquisição do conhecimento, tem sido um campo de dominação branco e eurocêntrico. A autora discorre sobre como o lugar de privilégio do branco na sociedade permitiu a formação de uma hierarquia na qual o conhecimento desse grupo passou a ser associado a verdade, absoluta e universal.

Já Sueli Carneiro utiliza o termo epistemicídio para denominar os processos exclusivos que as pessoas negras sofrem e que levam a sua morte. Entre os diversos fatores elencados por esta autora, está a “negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade”[ii].

Também Santos (2019[iii]) discute como a violência da escravidão se perpetua na sociedade por meio da ausência de representação. No artigo “A pálida História das Artes Visuais no Brasil: onde estamos negras e negros?” a autora faz uma crítica ao mito da democracia racial, que busca disfarçar e conformar o povo negro à um sistema opressivo e excludente, sob a falsa alegação de uma convivência harmônica. Santos comenta sobre como durante o governo Vargas essa falsa ideia de democratização foi utilizada para a homogeneização da história brasileira e apagamento das narrativas negras dentro dos currículos de ensino. Segundo a autora, mesmo na atualidade esses currículos permanecem pautados em uma visão eurocêntrica, em detrimento de outras formas de produção, como a africana e a afro-brasileira.

Para a mudança dessa prática Santos (2019) ressalta a importância da inclusão das produções negras na cronologia da história da arte. Segundo a autora, a aplicação das leis 10.639/03 e 11.645/08, que tratam da obrigatoriedade da inclusão da história e cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar, tem se dado pela apresentação de um capítulo separado nos livros didáticos, dedicados as produções não brancas, quando para ser efetiva e transformadora, essa inclusão deveria se dar dentro da linha do tempo da história que já é contada, dos capítulos já existentes, dividindo espaço com os artistas já consagrados, mostrando as similaridades entre as produções dos diferentes povos em um mesmo período, assim como as produções diferentes que aconteciam em paralelo.

Santos (2019) também dialoga com Grada Kilomba[iv] para discutir o caráter colonial da academia. Kilomba, que além de intelectual é artista e se destaca pelas performances, discute em sua palestra-perfomance “Descolonizando o Conhecimento”, sobre o temor do homem branco eurocêntrico de ter que lidar com a fala do negro colonizado. Kilomba lembra ainda que essa repressão não se dá apenas ao impedir que se fale, mas principalmente no silenciamento sistemático daquilo que é dito pelas pessoas negras.

A descolonização do conhecimento também é tema de reflexão para a filósofa Linda Alcoff (2016[v]) que destaca o papel da identidade social nesse processo, bem como confronta a ideia de universalidade ao questionar, como seria possível uma única epistemologia dar conta de todo conhecimento produzido nas diversas culturas e posições sociais.

Tais reflexões evidenciam como o processo de construção do conhecimento não é neutro e está imbuído de valores e interesses, nesse caso, oriundos de uma política branca, patriarcal e eurocêntrica. Nesse sentido, descolonizar o conhecimento implica romper com as amarras dessa forma de produzir conhecimento, amarras essas que muitas vezes são chamadas de norma culta[vi]. Implica também reconhecer que a produção de conhecimento é fruto de determinados contextos e lugares sociais, de modo que esses saberes são parciais e subjetivos, e que não há um conhecimento universal, mas sim relações de poder e dominação que privilegiam uma determinada forma de pensar. Em suma, compreende-se que o racismo também está presente nas questões epistemológicas e que a mudança dessa condição demanda a criação de outras formas de pensar e produzir conhecimento.

Referências:

[i] RIBEIRO, Djamila. Lugar de Fala (Feminismos Plurais). Pólen Livros. Edição do Kindle. Paginação Irregular. Acesso em: 13 dez. 2020.

[ii] CARNEIRO, Sueli. Epistemicídio. Portal Geledes,  2014. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/epistemicidio/> . Acesso em: 13 de dez. de 2020.

[iii] SANTOS, Renata Aparecida Felinto dos. A pálida História das Artes Visuais no Brasil: onde estamos negras e negros? Revista GEARTE, Porto Alegre, v. 6, n. 2, p. 341-368, maio/ago. 2019. Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/gearte> . Acesso em: 13 de dez. de 2020.

[iv] KILOMBA, Grada. Descolonizando o conhecimento. Tradução: Jéssica Oliveira. Instituto Goethe, s/a. Disponível em: <https://www.goethe.de/mmo/priv/15259710-STANDARD.pdf> . Acesso em: 13 dez. 2020.

[v] ALCOFF, Linda. Uma epistemologia para a próxima revolução. Sociedade e Estado . Brasília, n. 1, v. 31, jan./abr., 2016. Disponível em: < https://goo.gl/bKi4Pu >. Acesso em: 13 dez. 2020.

[vi] Idem item iii.

¹Mestranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:

LOURENÇO, Mariana de Santana. Epistemologia e Questões Raciais. In: Nuevo Blog, 01 abr. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/04/01/epistemologia-e-questoes-raciais/ . Acesso em: ??

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