A atualidade da Enquete Operária de 1880 para pesquisas sobre o mundo do trabalho

Fonte: Foto de Ken Tomita no Pexels

Jennifer de Oliveira Martins¹

Em um contexto de crescimento de teses e artigos acerca do fim do trabalho e da crítica ao suposto anacronismo da categoria “classe trabalhadora”[i], o presente texto tem como objetivo defender a atualidade da “Enquete Operária de 1880” elaborada por Marx[ii], sob encomenda da Revista Revue Socialist para as pesquisas no campo do trabalho, em suas áreas diversas.

Especialmente no ano de 2020, em que o mundo foi tomado pela pandemia global da COVID-19 e pela necessidade de distanciamento social como medida de proteção, evidenciou-se que o aumento da implementação das tecnologias digitais informais (TIC’s), assim como as “novas modalidades” de trabalho pautadas em tais artefatos, não são apenas fenômenos de inovação técnica. Mas, carregam também um conteúdo que deve ser abordado do ponto de vista histórico, sociológico e econômico. O trabalho, o ensino, as relações interpessoais e atividades culturais realizadas agora em âmbito online vêm acompanhados de leituras teóricas e discursos que, apesar de não surgirem esse ano, ganharam força na mídia e nas instituições.

Filgueiras e Calvacanti (2020[iii]) apresentam a tese de que estaríamos vivendo nas últimas décadas um novo, ou segundo, adeus à classe trabalhadora, referenciando nos trabalhos anteriores de Antunes (1995[iv]) acerca desse fenômeno. Promovido por diversos agentes sociais, a defesa da falência da categoria “classe trabalhadora” formulada por Marx ao longo de sua produção, tem sido ainda mais acentuado pelo advento das TICS.

Balizando-se na produção dos autores citados e no último livro lançado pelo historiador brasileiro Marcelo Badaró Mattos (2019) acerca da atualidade da produção marxista para entender a condição da classe que vive do trabalho. Discorda-se da noção de que estaríamos em uma sociedade na qual o trabalho deixa de existir como atividade central humana[v] e que, portanto, não haveriam mais classes, explorados e exploradores, e sim sujeitos com identidades diversas que não mantêm vínculo com as relações estruturantes da produção da vida social. Considerando que as novas formas de trabalho referenciadas nessas teses ainda se constituem no formato de trabalho assalariado, em sua ampla maioria. Quando não o fazem, carregam em si muitas similaridades com a dinâmica de trabalho comum, especialmente nos termos de vigilância e controle da jornada de trabalho. Além do fato de que os autores[vi] desse campo, ao não refletirem sobre o papel social da tecnologia, incorrem em diversos determinismos tecnológicos ou, ainda, na ideia da neutralidade tecnológica.

Esse contexto de disputa teórica é o pano de fundo em que se inserem alguns questionamentos advindos de estudantes na disciplina de Metodologia de Pesquisa I, do Programa de Pesquisa Tecnologia e Sociedade neste ano, em relação à possibilidade de utilização da Enquete Operária de Marx no contexto da pesquisa de campo nos dias atuais. Dúvidas legítimas surgiram durante a exposição do conteúdo, como: “não estaria o pesquisador induzindo as respostas do entrevistado?”, “não seria uma forma autoritária de fazê-los crer em determinada concepção de mundo?”, entre outras. Nessas reflexões estão a motivação para o presente texto, não por considerá-las irrefletidas ou rebaixadas, do contrário, por ver nessas indagações metodológicas o movimento necessário de investigação científica compartilhada.

A Enquete Operária pode ser lida como uma expressão viva do método elaborado por Marx e Engels e aprimorado ao longo da história da produção marxista, o Materialismo Histórico Dialético, exposto em sua ampla dimensão no livro, dos mesmos autores A ideologia alemã. A importância dessa obra refere-se à proposta de superação por meio da crítica e incorporação das postulações do materialismo de Feuerbach e da dialética hegeliana. Buscando a síntese dessas produções, os autores traçam longas e elaboradas críticas, que tem como produto final a concepção filosófica marxiana, pautada no pressuposto material. Ou seja, de que a realidade não é resultante de ideias e a lógica dialética, que por meio de suas leis internas nos fornece a capacidade de conhecer o “movimento do movimento em movimento”[vii].

Nesse sentido, a produção filosófica do marxismo nunca esteve distante das suas discussões relacionadas à crítica da economia política, mas se constituiu como um fio condutor dos estudos, que buscavam através da investigação e da ação no real, transformá-lo. Percebe-se, portanto, que há no método proposto pelos autores um objetivo definido, o de compreender profundamente o funcionamento da sociedade capitalista, buscando suas relações históricas, com o objetivo de destruí-la, visando a construção de uma sociedade sem classes.

A enquete operária, como expressão viva de todas essas discussões, tem como fundo teórico a noção de que “não é a consciência que determina o ser social, do contrário, o ser social que determina sua consciência”. Entretanto, faz-se necessário localizar tanto o social, quanto a consciência como elementos teóricos articulados: o social entendido como as relações sociais de produção da vida; ou seja, a forma com que a sociedade se organiza para garantir a satisfação de suas necessidades, que desde o contexto da enquete operária até os dias atuais são relações capitalistas. E a consciência como reflexo da realidade refratada através do prisma dos significados e conceitos linguísticos elaborados socialmente que, portanto, também tem relação com a construção histórica da forma de produção da vida humana e que se verifica em relação à atividade humana do trabalho, não como um elemento metafísico da mente humana[viii].

Dessa forma, a utilização da Enquete Operária como forma de estudo acerca das condições de trabalho e da consciência desses operários se constitui como resultado de um sistema de conceitos teórico-filosóficos e metodológicos. Esta, por sua vez, expressa em seu conteúdo e na sua aplicação as duas premissas que formulam o Materialismo Histórico Dialético: a noção de que a realidade da atividade material desses sujeitos é quem dá a eles uma condição de identidade e, mais do que isso, que por meio dessa investigação é possível ir além da busca por dados de análise. Possibilitando, assim, o processo ativo de despertar a esses sujeitos aspectos reveladores de seu papel social.

A atualidade da Enquete Operária se verifica nos argumentos apresentados no início desse texto de que, ainda que possamos observar diferenças na forma de estruturar a produção, de desenvolver determinados trabalhos, de quais as ferramentas são usadas para isso, de quais as palavras escolhidas para descrevê-los. A sociedade capitalista da atualidade tem como suas bases estruturantes as mesmas relações de classe que Marx encontrou nas respostas da enquete em 1880, de que há entre a maioria da população sujeitos que vendem sua capacidade de trabalho para outros que detêm os meios para que a riqueza seja produzida, com base na exploração do primeiro grupo.

Referências:

[i] ANTUNES, L. R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo. 2018

MATTOS, Marcelo Badaró. A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo 1a ed. São Paulo, Boitempo, 2019.

[ii] MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã (1845-1846). São Paulo, Boitempo, 2007.

[iii] FILGUEIRAS, Vitor.; CAVALCANTE, Sávio. O trabalho no século XXI e o novo adeus à classe trabalhadora. Revista Princípios, São Paulo, v. 1, n. 159, p. 12-41, jul./out. 2020

[iv] ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez, 1995.

[v] LEONTIEV, A. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978.

[vi] GORZ, Andre. Farewell to the working class. Londres: Pluto Press, 1982.

OFFE, Claus. Trabalho & sociedade: problemas estruturais e perspectivas para o futuro da sociedade do trabalho. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

[vii] THIOLLENT, J. M. M. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. (Coleção Teoria e História). São Paulo: Ed. Polis, 1987.

[viii] Idem item iv.

¹Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:

MARTINS, Jennifer de Oliveira. A atualidade da Enquete Operária de 1880 para pesquisas sobre o mundo do trabalho. In:   Nuevo Blog, 13 abr. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/04/13/a-atualidade-da-enquete-operaria-de-1880-para-pesquisas-sobre-o-mundo-do-trabalho/. Acesso em: ??

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