Do “Eu, Daniel Blake” ao “Nós, em Daniel Blake”

Por Francis Kanashiro Meneghetti

O Filme “Eu, Daniel Blake”, do cineasta Ken Loach e ganhador do prêmio Palma de Ouro em 2016, é um filme que mostra a realidade trágica de milhares de ingleses após a investida neoliberal promovida desde o governo da primeira ministra britânica, Margareth Tather – cujo o apelido era “A Dama de Ferro”, não sem razão –  contra o estado de bem-estar social (Walfere State) na Inglaterra.

Fonte: Foto reprodução do Filme “Eu, Daniel Blake”.

Entre as estratégias de destruição dos sistemas de proteções sociais, o advento de uma burocratização dos serviços essenciais que garantem condições de vida mínimas para as pessoas é, sem dúvida, um dos mais perversos e constrangedores. Essa estratégia despersonifica a culpa do sistema e responsabiliza as vítimas pelas suas próprias condições degradantes. Ou seja, culpabiliza a vítima por meio de um sistema burocrático que se torna totalizante no sistema de capital. Nada mais bárbaro, mas, ao mesmo tempo, sutil e constrangedor!

Podemos perceber no filme que a superioridade técnica da burocracia em relação a todas as outras formas de organizações sociais garante que as instituições governamentais – de natureza pública ou privada, como as terceirizadas pelo Estado, por exemplo – alimentam a ideia que o Estado se apresenta como garantidor da vida dos cidadãos, da dignidade humana e das condições necessárias para o desenvolvimento individual e social. Entretanto, é somente uma ilusão promovida por um sistema que retira o caráter humano das pessoas, transformando-as em números de um sistema que em si mesmo tem como características a impessoalidade que desumaniza, a formalidade extrema que inviabiliza a dignidade e o profissionalismo que transforma relações humanas em procedimentos.

As análises de Hannah Arendt na obra “Eichman em Jerusalém: um relato da banalidade do mal”, nos mostraram como a burocracia transformou os perpetradores nazistas em “cumpridores de ordens”, a ponto de vivenciarmos a barbárie e os horrores do extermínio sistemático e planejado a partir da colaboração burocraticamente solidária de pessoas que faziam parte do sistema, sem, contudo, sentirem-se culpadas pelo que faziam. Não podemos comparar diretamente o que aconteceu no contexto das atrocidades promovidas pelos nazistas com o que visualizamos no filme, mas certamente podemos e devemos estar alerta para o fato que a burocracia tem o gérmen da barbárie no seu DNA e que, no fim, todos somos vítimas de nós mesmos, sobretudo quando deixamos o senso crítico de lado para aderir voluntariamente ao discurso da culpabilização da vítima!

Assista a análise do Filme “Eu, Daniel Blake”. (AVISO: os comentários contêm Spoilers)


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor dos programas de Pós-Graduação em Administração e de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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