Para todo problema complexo, existe uma solução simples, fácil e completamente errada

Bianca Cata-Preta¹

O título desse texto é uma citação adaptada do jornalista norte-americano H.L. Mencken e parece bastante apropriada para iniciarmos uma reflexão sobre as alternativas que surgiram no Brasil para o enfrentamento da pandemia de COVID-19.

Essa frase me acompanha desde 2018, quando tomei conhecimento dela. À época, eu estava pesquisando sobre um movimento chamado Cobertura Universal de Saúde, a qual propõe que todos os seres humanos tenham acesso à saúde sem que sofram alguma dificuldade financeira para isso[i].

Bem, saúde é um conceito bastante complexo, que envolve não apenas a ausência de doença, mas um completo bem-estar físico, mental e social. Fornecer condições para que todos os seres humanos tenham acesso à saúde de que necessitam, independentemente de sua religião, cor da pele, cultura, região de moradia, é outro assunto complicado. E foi aí que ficou evidente para mim que qualquer solução para um problema complexo que pareça fácil ou simples demais provavelmente não terá sucesso.

E não apenas no que diz respeito ao acesso universal à saúde. Para citar brevemente questões contemporâneas, para as quais algumas figuras influentes propõem soluções simples e milagrosas, temos a segurança pública, a educação e a corrupção.

Por exemplo, para reduzir a criminalidade, basta facilitar o porte de armas para todos. Cada um que cuide da sua própria segurança. Para aumentar o nível de escolaridade do brasileiro, basta aumentar o número de vagas em escolas e universidades. Mais gente estudando, melhor o país fica no ranking da educação, sem que haja preocupação com a qualidade do ensino oferecido e com os profissionais envolvidos. Para acabar com a corrupção – essa é a solução que eu acho mais fantasiosa – basta desmoralizar um partido político e eleger um chefe de estado que é contra a corrupção, mas somente quando o convém.

Por outro lado, as medidas que o governo brasileiro tem adotado desde 2020 para o enfrentamento da COVID-19 merecem um capítulo à parte. Aqui, quero tratar de duas: a imunidade coletiva e o tratamento precoce. Mas antes, é bom deixar explícito que o Governo Federal não acredita que soluções simples são capazes de controlar a pandemia e sim, ele – deliberadamente – adotou medidas para prejudicar o controle da pandemia.

Isso está demonstrado pelo estudo liderado pela professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP. O estudo avaliou as normas editadas, no âmbito da União, relacionadas à COVID-19 (foram 3049 normas em 2020) e demonstrou a “existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus”[ii]. Ou seja, o Governo Federal usa de sua influência e alcance para convencer o cidadão brasileiro, com argumentos parcos, de que o problema da pandemia pode ser facilmente resolvido. E muitas vezes, consegue esta persuasão.

Vimos isso no caso da propaganda para incentivar a imunidade coletiva, também conhecida como imunidade de rebanho, como solução para acabar com a doença. O argumento era simples, e até plausível: ao adquirir a doença, o corpo vai gerar uma imunidade natural e, tão logo a maioria da população tenha sido contaminada, estará automaticamente imune e o vírus pararia de circular.

Como para todo problema complexo, existe uma solução simples, fácil e completamente errada, incentivar a contaminação de uma população inteira por um vírus que causa uma doença totalmente desconhecida (à época) é, no mínimo, antiético. O fato de não se saber quais sequelas a doença poderia causar, sem saber ao certo se ela se manifestava de maneira distinta em grupos diferentes da população (jovens e idosos, pretos e brancos) e “sem considerar” a possibilidade de mutações que pudessem gerar uma variante mais infecciosa e que causasse uma doença mais severa aponta para uma irresponsabilidade sem precedentes.

A imunidade de comunidade só faz sentido quando adquirida por meio de vacinação [iii]. Hoje, isso parece estar mais sedimentado, mas o argumento do presidente da república, infelizmente, permaneceu por um bom tempo no rol de argumentos sobre o enfrentamento da COVID-19 de muitos brasileiros.

A segunda medida, ainda mais chocante, é a propaganda do tratamento precoce. Até o momento em que esse texto foi escrito, não existe tratamento farmacológico comprovadamente eficaz que previna a infecção, ou transmissão, pelo novo coronavírus ou que cure a doença em estágio inicial.

No dia 16 de abril de 2020, o então Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, foi demitido do cargo e deu o seguinte depoimento sobre o presidente da república:

Nunca na cabeça dele houve a preocupação de propor a cloroquina como um caminho de saúde. A preocupação dele era sempre ‘vamos dar esse remédio porque com essa caixinha de cloroquina na mão os trabalhadores voltarão à ativa, voltarão a produzir’. […] o projeto dele para combate à pandemia é dizer que o governo tem o remédio e quem tomar o remédio vai ficar bem. Só vai morrer quem ia morrer de qualquer maneira[iv].

Cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina são medicamentos comprovadamente ineficazes para COVID-19 e que podem causar reações adversas graves a quem os ingere[v]. Além disso, adotar o tratamento precoce pode dar a falsa ideia de segurança, fazendo com que as pessoas negligenciem medidas de proteção realmente efetivas (como o uso da máscara) e aumentem a propagação do vírus.

Após mais de um ano de pandemia, a discussão sobre o tratamento precoce ainda existe no Brasil, único país no mundo que adota essa medida. Entender que o Governo Federal faz propaganda de medidas falaciosas contra a COVID-19 e que muitos brasileiros as adotam não é tarefa das mais difíceis. Nós vemos isso diariamente e a pandemia está em seu estágio mais grave não é à toa. A grande reflexão é: por quê?

Por que muitas pessoas, escolarizadas ou não, pobres ou ricas, com formação na área de saúde ou não, tomam como verdade que medidas simplórias, aqui já mencionadas, são capazes de solucionar um problema com o qual o mundo todo luta contra, em muitos casos sem sucesso?

Talvez uma parte da explicação esteja relacionada ao negacionismo, isto é, o ceticismo sobre o valor da ciência. Outra parte, pela crônica e imensa desigualdade social que perdura no Brasil, abrindo caminho para movimentos populistas que tomaram conta do país há alguns anos, propondo soluções mágicas para problemas que nos acompanham há muito tempo.

Sem dúvida, nós gostaríamos que houvesse uma solução simples e única para acabar com a propagação do coronavírus e para mitigar as consequências da COVID-19 na saúde humana, no sistema de saúde e na economia do Brasil. Porém, manter essa ilusão só nos afasta de elaborar e implementar medidas, complexas sim, mas que sejam capazes de ajudar a população no enfrentamento da pandemia.

Fica o apelo para que, a despeito do que o Governo Federal faz, nós, cidadãos, possamos entender a complexidade do problema pelo qual estamos passando e buscar soluções à altura.

Referências:

[i] UNIVERSAL Health Coverage. In: World Health Organization, s/a. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/universal-health-coverage#tab=tab_1. Acesso em 19 maio 2021.

[ii] Boletim n. 10. Direitos na pandemia. Mapeamento e análises das normas jurídicas de resposta à COVID-19 no Brasil. In: Conectas, São Paulo, 21 jan. 2021. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2021/01/boletim-direitos-na-pandemia.pdf. Acesso em: 19 maio 2021.

[iii] RODRIGUES, Thais. É ilusório apostar em imunidade de rebanho como solução contra covid, diz USP. Congresso em Foco – UOL, 31 mar. 2021. Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/e-ilusorio-apostar-em-imunidade-de-rebanho-como-solucao-contra-covid-diz-usp/.Acesso em: 19 maio 2021.

[iv] Idem item ii.

[v] WHO advises that ivermectin only be used to treat COVID-19 within clinical trials. In: World Health Organization, 31 mar. 2021. Disponível em: https://www.who.int/news-room/feature-stories/detail/who-advises-that-ivermectin-only-be-used-to-treat-covid-19-within-clinical-trials. Acesso em: 19 maio 2021.

MERCK statement on ivermectin use during the COVID-19 pandemic. In: MERCK, Feb, 2021. Disponível em: https://www.merck.com/news/merck-statement-on-ivermectin-use-during-the-covid-19-pandemic/. Acesso em: 19 maio 2021.

JORGE, A. Hydroxychloroquine in the prevention of COVID-19 mortality. In: The Lancet Rheumatology. Nov, 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanrhe/article/PIIS2665-9913(20)30390-8/fulltext. Acesso em: 19 maio 2021.

¹Formada em Farmácia pela Universidade Federal do Paraná. Mestre e doutoranda em Epidemiologia pela Universidade Federal de Pelotas. É membro da equipe científica do comitê para enfrentamento da COVID-19 da UFPel.

Como citar:

CATA-PRETA, Bianca. Para todo problema complexo, existe uma solução simples, fácil e completamente errada In: Nuevo Blog, 19 maio 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/05/19/para-todo-problema-complexo-existe-uma-solucao-simples-facil-e-completamente-errada/. Acesso em: ??

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