Amar é estar entrelaçado!

Por Francis Kanashiro Meneghetti

Entre-laços ou Entrelaçados é um filme japonês, dirigido por Naoko Ogigame, conta a história da jovem Tomo, que é abandonada pela mãe e passa a morar com o tio Makio e sua companheira Rinko, uma transgênero.

Fonte: Foto reprodução do Filme “Entre-laços”.

Ao assistir ao filme, grande parte do público tende a dar centralidade nos conflitos relacionados à questão de gênero (que ocorrem, no filme, na escola, no supermercado, na delegacia, entre os familiares, etc.), à questão do abandono da menina Tomo ou, ainda, às questões relacionadas aos tabus e preconceitos associados à sexualidade. Apesar de importantes, tudo isso é contingencial. O enredo central é o nascimento do amor, ou, mais especificamente, do seu florescimento a partir da adoção mútua entre os que procuram as curas existenciais por meio dos laços afetivos.

O filme nos ensina que o amor nasce em meio a um emaranhado de sentimentos antagônicos, provocados pelas dores inerentes ao ato de viver. Fica evidente que nos constituímos como seres que amam, inevitavelmente, pelos entrelaçamentos de diversas emoções e sentimentos vivenciados, sejam eles bons ou ruins.

Percebemos que é dos nossos traumas que surgem possibilidades de adoções mútuas entre os “desejantes”. A negação dos desejos por parte de uma sociedade preconceituosa é o verdadeiro ceifador da nossa existência. O filme nos ensina que o corpo é um veículo de cura, mas só para aqueles que, primeiro, fazem dele algo mais do que um “aparelho biológico”, normalizador das relações afetivas. No filme, por exemplo, os seios são muito mais do que órgãos para prover nutrição. É a própria origem de uma forma de maternidade que transcende o biológico, sem negar o corpo.

Mas um alerta! Entre-laços é um filme para quem tem dentro de si apreço pelo belo. É uma obra de estética refinada, do cuidado dos detalhes, sobretudo das belezas dos outros. Não é um filme para pessoas egoístas, preconceituosas, ressentidas, desesperançadas, que escolhem a pequenez na existência. Os detalhes das comidas preparadas, do cuidado dos idosos, da elegância na vestimenta, da educação, do respeito as tradições religiosas sem superveniência protagonizadas por Rinko gera revolta e ataques para os que não acharam o caminho do amor.

Por fim, o filme ajuda a pensar que as questões de gênero não devem ser protagonizadas pelas questões do corpo, ou seja, do biológico. Devem ser pensadas a partir das possibilidades do corpo como veículo para um desejo maior: o amor que pede e necessita dos prazeres nas suas diversas formas (e não somente a originada no sexo), mas não se limitam a eles; prazeres esses que são, antes de tudo, a capacidade de reconhecer que existem várias possibilidades de realizá-los, mas somente por aqueles que procuram permanentemente se livrarem desse peso que são nossos preconceitos.

Assista a análise do Filme “Entre-Laços” ou “Entrelaçados”. (AVISO: os comentários contêm Spoilers)


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor dos programas de Pós-Graduação em Administração e de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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