Respiramos, sufocadas há muitos séculos

Louise Rodrigues Silva¹

Escrevo essa reflexão como estudante de pós-graduação, mulher, negra de pele clara, cis, localizada no interior do sudeste brasileiro. Relato que ao me deparar com estudos decoloniais fiquei inquieta ao visualizar o quanto a colonização roubou de nós, população racializada como negra e, nos impediu de respirar e existir na miríade dos direitos civis. Os saberes que são iniciados na escola básica e que nos acompanham até a pós-graduação é, majoritariamente, cartesiano e conta uma única história sobre o poder, saber e ser. Ao constatar o mundo atravessado pela colonialidade do(s) saber(es), ser(es) e poder(es) que foi legitimado a partir do eixo norte[i], são a partir daí revelados e deixam de ocupar o lugar de neutralidade.

Ao ampliar as possíveis lentes de saberes, poderes e seres nos é revelado saberes ancestrais. Conhecimentos esses que foram retirados dos nossos povos, sobretudo, quando pensamos nos povos racializados como negros e originários[ii]. Destaco os povos racializados como negros e os diversos aspectos apagados de nossas histórias, como linguagem, cultura, religião. Ações feitas contra os povos racializados como negros que Abdias do Nascimento (2011) chamou de Genocídio do Negro Brasileiro. Diante desse contexto, ressalvo a palavra racializada, pois, dado que raça é construto social e não biológico, é preciso reconhecer o processo de outrerização a partir do construto racial[iii]. Relembrando que o grupo social que moldou o sistema racista foram os brancos colonizadores, e esse sistema  veem sido repetido e estruturado ao longos dos séculos[iv].

Em sincronia, sublinho a palavra retirados, pois o processo escravocrata ocorreu na ideia supremacista de povos europeus brancos sob povos que sofreram diáspora forçada em África[v]. O processo historicizado a partir do período colonial, mantém feridas abertas na atualidade diante do cenário que vivemos. A saber: “Brasil, 03 de julho de 2020, 63.254 mortes por Covid-19”[vi]. Nessa data, a revista Época divulgou um levantamento exclusivo sobre o perfil dos brasileiros vítimas fatais da Covid-19, realizado pela consultoria Lagom Data. Segundo Soares, os dados coletados do SUS (Sistema Único de Saúde) indicam que a vítima-padrão da Covid-19 no Brasil é o homem, pobre e negro: “em comum, eles têm a cor, a idade e a falta de oportunidades”[vii].

Segundo as autoras Mesquita e Teixeira (2020[viii]), o vírus Covid-19 é um novo inimigo, contudo intensificado pelas velhas tecnologias de genocídio no país. As autoras chamam de tecnologia por envolver processos estruturais e sistematizados de produção da morte das pessoas racializadas como negras, um processo de necropolítica em curso[ix]. Nesse sentido, as abordagens interseccionais e históricas podem auxiliar na compreensão dos retratos estruturais de como estes e outros problemas afetam em maior medida determinadas populações[x]. Intersecções que reforçam a dor do povo racializado como negro

Nessa miríade de dores, retomo o processo de violência para com as mulheres negras e suas múltiplas consequências. Lélia Gonzalez, negrita as estratégias desenvolvidas por essas mulheres negras escravizadas para enfrentar o processo de dominação/exploração que procurava mantê-las como outro/escravo/objeto. “O racismo latino-americano é suficientemente sofisticado para manter negros e indígenas na condição de segmentos subordinados no interior das classes mais exploradas, graças a sua forma ideológica, mas eficaz: a ideologia do branqueamento”[xi]. É oportuno, compreender a dupla clivagem de gênero e raça que articuladas em conjunto teorizam a lógica opressiva da modernidade colonial e permitem perceber a imposição colonial. Bem como, a “extensão e profundidade histórica de seu alcance destrutivo”[xii]. Assim, a abordagem de gênero é necessária para entender como o corpo, o sexo e o próprio gênero foram construídos concomitantemente com o construto racial.

Em que pese todo o sofrimento com as mortes em curso de homens, mulheres e jovens racializados como negros. Destaco o livro “Dororidade” escrito por Vilma Piedade (2017[xiii]), mulher negra, pós-graduada em literatura brasileira e português, e uma importante lutadora dos direitos das mulheres negras. Quando me deparei com o livro e com o conceito de dororidade algo me chamou muita atenção. A autora relaciona o termo com a palavra sororidade, conceito criado pelas feministas no sentido de irmandade. Para Vilma (2017), o problema do feminismo é ter sido pensado como um movimento de mulheres brancas, instruídas e de classe média, tendo somente após a década de 80 os relativismos do movimento. Vilma (2017) continua e vai mais a fundo no conceito da sororidade, pois segundo a autora essa relação de solidariedade, cumplicidade e cuidado entre mulheres, não dá conta de toda carga das mulheres negras

O que une as mulheres negras pela dor? A dororidade é a cumplicidade entre mulheres negras, pois existe dor(es) que só as mulheres negras reconhecem e, por conseguinte, a sororidade não alcança toda a experiência vivida pelas mulheres negras em seu existir histórico[xiv]. Bem como, a sociedade brasileira ainda não consegue ver de modo natural os corpos racializados como negros em lugares que foram historicamente destinados para a branquitude[xv]. Em conformidade com a autora, destaco as dores dos corpos negros, sobretudo, mulheres negras, são invisibilizadas[xvi].

É importante reforçar que é necessário assumir abertamente uma luta antirracista e que a dororidade é um passo grande para o entendimento da necessidade dessa luta. O fato de mães e mulheres negras vivenciarem as perdas de vida e, não excludente, o encarceramento dos seus filhos, companheiros ou/e irmãos, são bons exemplos dessas dores[xvii].  As charges abaixo representam lugares sociais, de gênero e raciais construídos e subordinados por dores latentes e reais, como feridas abertas:

Figura 1 – Negros são as maiores vítimas da violência

Fonte: Junião (2017[xviii])

Figura 2 – Mais uma regra de sobrevivência

Fonte: Junião (2014[xix])

Destaco a reflexão do conceito proposto por Vilma (2017), dororidade e que é fruto de suas preocupações com suas raízes e, que apesar dos direitos conquistados pela população racializada como negra, só aconteceram após muita luta, reivindicações e, infelizmente, com muito sangue. Por isso, é preciso reconhecer que o processo necropolítico segue ininterrupto, para além das não reparações históricas para conosco.

E ao passo que somos minorias políticas em representatividade socioeconômica e política, é primordial lembrar que somos maioria nas ruas, em serviços essenciais e que a colonialidade se reorganizou em tempos de pandemia. Negritar que trabalhos foram essencializados durante a pandemia. A despeito da eminencia do risco de morte ações providas para que a “casa grande” pudesse continuar usufruir do trabalho doméstico, representam a política da morte em curso[xx]. Uma reinvenção da modernidade embebida em colonialidade, sexismo, racismo e classismo.

Vilma reforça que “dor não é maior ou menor, é dor”. No Brasil, a dor a partir da constituição racial é infringida incessantemente. O Brasil é um país que ainda mata crianças como Miguel [filho de Mirtes, trabalhadora doméstica], João Pedro, Jenifer, Kauan, Kauê, Ágatha e Kethellen. País em que uma mulher negra é agredida em São Paulo durante uma batida policial, em tempos de pandemia, e diz “não consigo respirar”, ocupar os espaços acadêmicos é configurado como um ato de desobediência.

Um dos possíveis caminhos de resistência, suspiro e do decolonizar espaços coloniais como a ciência[xxi]. O fato de estarmos vivos e em espaços constituídos pela e para a branquitude[xxii] é por si um ato de resistência. Contudo, é importante refletirmos qual tipo de ciência convidamos o campo a refletir. É político situar os saberes, poderes e seres e fomentar reflexões a partir de ontologias, epistemologias, teorias e metodologias que foram silenciadas. Precisamos romper com o sufocamento. Vilma (2020[xxiii]) disse, “não respiramos há muitos séculos”. É preciso relembrar que estamos sendo asfixiadas e que precisamos respirar. Nesse caminho é importante refletirmos em nossa ciência a dororidade, a interseccionalidade, o feminismo negro, dentre outros saberes.

Referências:

[i] BERNARDINO-COSTA, J; MALDONADO-TORRES, N; GROSFOGUEL, R (Org.). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. 365 p.

[ii] NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

[iii] KILOMBA, Grada. Plantation Memories. Episodes on Everyday Racism. [S. l.: s. n.], 2010. 

TEIXEIRA, Juliana Cristina; OLIVEIRA, Josiane Silva de; CARRIERI, Alexandre De Pádua. Por que falar sobre raça nos estudos organizacionais no brasil ? da discussão biológica à dimensão política. Revista Perspectivas Contemporâneas, [s. l.], v. 15, n. 1, p. 46–70, 2020.

[iv] ALMEIDA, Silvio. O que é racismo estrutural. 1. ed. São Paulo: Editora Pólen, 2019.

FRANTZ, Fanon. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

[v] MUNANGA, Kabengele. NEGRITUDE E IDENTIDADE NEGRA OU AFRODESCENDENTE: um racismo ao avesso ? Revista da ABPN, [s. l.], v. 4, n. 8, p. 6–14, 2012.

[vi] VICENTINI, R. Coronavírus: com 1.264 mortes confirmadas em 24 horas, Brasil ultrapassa 63 mil óbitos. Uol Notícias, 2020. Disponível em: http:// noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/07/03/coronavirus-covid-19-casos-mortes-3-julho.htm. Acesso em: m 23 de março, 2021.

[vii] SOARES, M. (com reportagem de Alice Cravo e Constança Tatsch). (2020). Homem,pobre, negro: a cara da vítima de Covid-19 no Brasil. Revista Época. Recuperado em 23 março, 2021, de: https://epoca.globo.com/sociedade/homem-pobre-negro-cara–da-vitima-de-covid-19-no-brasil-1-24512320. p. 23.

[viii] MESQUITA, J.S.; TEIXEIRA, J.C. Janelas da Pandemia / Organizadoras: Ludmila de Vasconcelos M. Guimarães, Teresa Cristina Carreteiro, Jacyara Rochael Nasciutti. – Belo Horizonte : Editora Instituto DH, 2020.

[ix] MBEMBÉ, J. A.; MEINTJES, L. Necropolitics. Public culture, v.15, n.1, 2003.

[x] AKOTIRENE. Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Polém, 2019.

[xi] GONZALES, LÉLIA. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, 1984. p. 15.

[xii] LUGONES, María. “Colonialidad y género”. Tabula Rasa,Bogotá, Colombia, n. 9, p. 73-101, jul./dic. 2008. p. 77.

[xiii] PIEDADE, Vilma. Dororidade. São Paulo: Nós, 2017.

[xiv] Idem item xii.

[xv] APARECIDA, Maria; BENTO, Silva. Branquitude – o lado oculto do discurso sobre o negro In: Psicologia social do racismo – estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil / Iray Carone, Maria Aparecida Silva Bento ( Organizadoras) Petrópolis, RJ: Vozes, 2002,. [s. l.], 2002.

[xvi] Idem item xii.

[xvii] Idem item xii.

[xviii] JUNIÃO. Negros são as maiores vítimas da violência. Junião, 06 jun. 17.Disponível em:< https://ponte.org/charge-negros-sao-as-maiores-vitimas-da-violencia/> Acesso em 22 março. 2021.

[xix] JUNIÃO. Mais uma regra de sobrevivência. Junião, 28 fev. 2014. Disponível em: <http://www.juniao.com.br/racismo-charge-juniao/#more-2702&gt; Acesso em 22 março. 2021.

[xx] TEIXEIRA, Juliana Cristina. Brazilian housemaids and COVID-19: How can they isolate if domestic work stems from racism? Gender, Work and Organization, [s. l.], v. 28, n. August 2020, p. 250–259, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1111/gwao.12536

[xxi] SILVA, Caroline Rodrigues. Writing for survival (… and to breathe). Gender, Work and Organization, [s. l.], n. January, p. 1–10, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1111/gwao.12578

[xxii] Idem item xv.

[xxiii] PIEDADE, Vilma. In: Extensão UFRJ. Dororidade: Feminismo. Racismo. Branquitude. 2020. (65mim5s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=teLrOTKibFY&gt;. Acesso em: 23 março 2021.

¹Mestranda – Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Como citar:

SILVA, Louise Rodrigues. Respiramos, sufocadas há muitos séculos In: Nuevo Blog, 05 maio 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/05/05/respiramos-sufocadas-ha-muitos-seculos/. Acesso em: ??

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