O vicioso círculo da liberdade

Giselle Quaesner¹

Estava, certa noite, deitada em minha cama, me preparando para dormir, enquanto pensava na privação temporária de nosso direito de ir e vir, em decorrência do distanciamento social necessário para vencermos uma pandemia. Há muito questiono o conceito de liberdade e as diversas interpretações que esse termo proporcionou ou proporciona em diferentes esferas. Particularmente, por ser anarquista, esse termo possui um significado especial em minha vida, pois constitui um dos pilares dessa ideologia política (embora eu considere mais que uma ideologia).

Mikhail Bakunin declarou em “O conceito de Liberdade” (1975): “Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente livres” (p. 22), revelando que a liberdade está totalmente associada ao nosso êxito como sociedade e que não há real progresso enquanto estivermos cercados/as pelas descomunais desigualdades, sejam elas de qualquer natureza. Por conseguinte, gritou-se, durante a Revolução Francesa, que a humanidade se envolveria pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, no entanto, muitos/as priorizaram apenas um dos três termos sem a consciência de que qualquer um dos termos adotado isoladamente é pura ilusão. O verdadeiro avanço deve ser integral, do oriente ao ocidente, do norte ao sul, abraçando todas as culturas e povos.

Me preparando para dormir estava, certa noite, deitada em minha cama, enquanto pensava na privação temporária de nosso direito de ir e vir, em decorrência do distanciamento social necessário para vencermos uma pandemia. Foi nessa noite que ajoelhei em minha cama e pedi perdão a todos os seres humanos que foram escravizados devido a nossa ignorância e estupidez, ou à nossa incapacidade de reconhecer que somos todos/as iguais e não há superioridade associada a elementos culturais, de gênero ou cor de pele. Afinal, o que são algumas semanas ou meses de reclusão (confortável para muitos/as) em comparação ao sofrimento de quem nasceu com o alvo nas costas determinando que a liberdade não seria uma opção em nenhum momento da vida?

Quando Pierre Proudhon, em “O que é a propriedade?” (1975), elucida que a escravatura é o assassínio, logo lembramos de períodos históricos nos quais ocorreu uma dominância violenta de alguns povos sobre outros e não percebemos que a escravidão ainda se faz presente em um momento no qual há uma ameaça à saúde pública e todos/as precisam permanecer em seus lares para evitar a propagação desse mal, contudo, por ganância, muitos dos grandes empresários, apoiados por líderes do Estado, ameaçam despedir os/as funcionários/as que decidirem se abster de suas atividades profissionais presenciais. Que liberdade possui alguém que necessita do emprego para sustentar a sua família? As opções destinadas a esses trabalhadores/as são: morrer de fome ou de doenças.

Certa noite, estava me preparando para dormir, deitada em minha cama, enquanto pensava na privação temporária de nosso direito de ir e vir, em decorrência do distanciamento social necessário para vencermos uma pandemia. Nesse momento, chorei por saber que ainda há pessoas, as quais acreditam que as vidas perdidas no percurso são menos importantes que os recursos materiais e a economia. Sofri por entender que ainda há pessoas, as quais transformam pais, mães, avós, avôs, filhos, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas, tios, tias, em códigos numéricos, perfeitamente substituíveis, componentes de uma corporação cujo totem é o lucro.

Deitada em minha cama, me preparando para dormir estava, certa noite, enquanto pensava na privação temporária de nosso direito de ir e vir, em decorrência do distanciamento social necessário para vencermos uma pandemia. Naquele instante, percebi que nossa privação é temporária e temos a oportunidade de criar um novo capítulo em nossa história, no qual as desigualdades sociais são amenizadas, o respeito prevalece, a vida é priorizada e o bem-estar coletivo torna-se mais importante que o dinheiro. Notei, enquanto pensava na privação temporária de nosso direito de ir e vir, em decorrência do distanciamento social necessário para vencermos uma pandemia, deitada em minha cama, certa noite, no instante em que estava me preparando para dormir, que é necessário reforçar constantemente o mesmo assunto para que lembremos de quantas vezes repetimos símeis erros, embora exista uma história repleta de exemplos, os quais desempenham significativa função de nos mostrar que está em nossas mãos alterar esse percurso ou continuaremos presos/as em um círculo vicioso que me faz refletir, deitada em minha cama, me preparando para dormir, certa noite.

Referências:

BAKUNIN, Mikhail. Conceito de liberdade. Porto: Rés limitada, 1975.

PROUDHON, Pierre Joseph. O que é a propriedade?. Tradução de Marília Caeiro. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1975.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Bolsista pela Capes.

Como citar:
QUAESNER, Giselle. O vicioso círculo da liberdade. Nuevo Blog. Disponível em: https://nuevoblogbr.wordpress.com/2020/04/05/o-vicioso-circulo-da-liberdade/. Acesso em: ??

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