A Epistemologia Qualitativa de Fernando Luis González Rey

Evelyn Raquel Carvalho¹

A produção acadêmica é um desafio. Leituras em bases bibliográficas, disciplinas, orientações e grupos de estudos. Orientadores/as apresentam diversas possibilidades que nos fazem pensar sobre o que mais nos sensibiliza e afeta na pesquisa. Foi nesse percurso que encontramos Fernando Luis Gonzalez Rey (1949- 2019). Os estudos deste autor nos inquietam diariamente a cada obra, palestra, artigo. Mediante seu olhar somos convidados a uma instigante reflexão sobre a pesquisa qualitativa.

O professor cubano Gonzalez Rey foi doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia Geral e Pedagógico de Moscou, professor titular do Centro Universitário de Brasília, bem como professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília, local em que coordenou o grupo de pesquisa ‘A subjetividade na saúde e na educação’. Rey foi professor visitante de diversas universidades estrangeiras entre as quais: Universidade Autônoma de Madri (Espanha), Universidade de Buenos Aires (Argentina) e Universidade Autônoma do México. Recebeu o prêmio Interamericano de Psicologia em 1991 e o principal reconhecimento da ciência cubana, a ‘Orden Carlos J. Finlay’ no mesmo ano[i].

Os estudos de Rey foram impulsionados inicialmente por Liev Semiónivitch Vygotsky (1986 – 1934) que desenvolveu trabalhos embasados na visão da Teoria Histórico Cultural (THC). Nesta corrente teórica o processo cultural associa-se à forma como desenvolvemos nossas vidas, como aprendemos e estabelecemos relações conosco e com as outras pessoas. Importa destacar que a THC considera a materialidade da existência, ao mesmo tempo em que valoriza a constituição da subjetividade. Os trabalhos de Vygotsky dedicaram-se a superação da dicotomia entre o social e o individual, trazendo para o centro das discussões o debate sobre a cultura, pensamento, linguagem e subjetividade.

O sentido subjetivo, nos estudos de Rey, são peças-chave dentro da pesquisa qualitativa. A subjetividade é vista como complexa e dialógica, não uma organização que se esgota no indivíduo. Pelo contrário, trata-se de um sistema plurideterminado que caracteriza também a construção dos processos psicossociais.

A subjetividade individual é determinada socialmente, mas não por um determinismo linear externo, do social ao subjetivo, e sim em um processo de constituição que integra de forma simultânea as subjetividades social e individual. O indivíduo é um elemento constituinte da subjetividade social e, simultaneamente, se constitui nela[ii].  

A subjetividade não é coisificada, fixa, porém, cada um de nós somos produtores/as de sistemas e significados que por sua vez estão envoltos por sistemas de subjetividade social. Esta compreensão subjetiva da realidade rompe com a lógica instrumentalista e aponta para uma perspectiva histórica cultural, na qual o conceito de cultura é importante para ultrapassar polaridades como indivíduo versus sociedade, consciente versus inconsciente, cognitivo versus afetivo. Esta ressignificação da realidade demarca a metodologia concebida por Rey que se caracteriza como uma epistemologia qualitativa[iii].

Pensar a partir desta epistemologia é conceber uma ciência dialógica que se constrói na interação e compreensão de que somos parte desta realidade. Em palestra ministrada na Universidade Federal do Espírito Santo em 2007, Rey pondera que a teoria da subjetividade na perspectiva histórico cultural é subversiva por definição, porque não normatiza e nem se internaliza. Não pode ser vivenciada de modo linear, numa relação causa e efeito. A subjetividade se dá no processo de viver uma experiência. Ela é o resultado de uma teia de elementos inter-relacionados que estão envolvidos com certo efeito, e desdobramentos da experiência vivida[iv].

Nesta epistemologia, somos livres para duvidar, criticar, interagir com o autor. Além de descrevermos a pesquisa, também nos dedicamos a explicá-la. Até que ponto a teoria que adotamos colabora para a compreensão da realidade? Rey nos apresenta um modo diferente de fazer ciência, e indica que a primeira construção interpretativa é a definição do objeto. Este é sempre resultado de uma construção teórica: “o conhecimento é uma construção interpretativa da realidade e […] seu caráter interpretativo é gerado pela necessidade de dar sentido a expressões do sujeito estudado, cuja significação para o problema estudado é só indireta e implícita”[v].

A teoria de Rey coloca em perspectiva nossa formação inicial marcada por modelos cartesianos que pressupõem neutralidade, racionalidade, separação entre mente e corpo, e não envolvimento no decorrer da pesquisa. Na epistemologia qualitativa pessoas não são seres isolados; sofremos determinações sociais, históricas, culturais, da linguagem, da construção social e dos vínculos familiares[vi]. Dias e Soares (2019[vii]) acrescentam que:

A construção de um objecto de estudo corresponde a um processo complexo que se vai desenvolvendo a partir de um olhar sobre o mundo, sobre as questões que trazem afectos ou com as quais o pesquisador se vê afectado. São construções subjectivas tecidas de sentidos traçados ao longo da própria vida por quem pesquisa e por quem olha a realidade e se questiona sobre ela.

Nesta seara captamos a subjetividade do objeto, ancorados num processo desenvolvido pela nossa própria subjetividade dos/as pesquisadores/as. Essa experiência é única, contextualizada pelo tempo histórico cultural em que se realiza o estudo, e também pelos aspectos das experiências enquanto condições e vivências de quem pesquisa. O sujeito pesquisador vai se constituindo graças à condição subjetiva atual, que representa a síntese subjetivada de sua história pessoal e social produzindo sentidos e significações[viii].

Somos educados num modelo hegemônico de ciência – que tem como pilares a racionalidade e objetividade – princípios que supervalorizam o dado quantitativo. Rey (2011[ix]) nos mostra uma epistemologia que prima pelo espaço da subjetividade na construção do conhecimento. Ao invés do ‘culto ao dado’, aponta para a criação de indicadores. O uso de indicador não é a priori[x], é um momento da pesquisa que permite a interpretação da realidade estudada gerando novas zonas de inteligibilidade e, por sua vez, novos indicadores. Categorias também são construídas na produção do pensamento do pesquisador e representam mais que o momento da construção teórica. Ao produzirem zonas de sentido, concebem novas categorias e ao mesmo tempo negam outras.

Neste tipo de epistemologia, quem pesquisa nunca conclui de forma definitiva, motivado pelo resultado de um instrumento ou de uma experiência. O caráter construtivo interpretativo é a arte de desenvolver caminhos hipotéticos que vão ganhando clareza e representatividade conceitual para o pesquisador ao longo do estudo. Por este motivo, Rey não estabelece etapas rígidas que separam momentos empíricos, análise de resultados e construção teórica. A todo o momento o/a pesquisador/a está descobrindo novas zonas de sentido e novos indicadores – importantes elementos que permitem abrir hipóteses às quais podemos dar continuidade dentro do processo de pesquisa.

Um dos pontos que mais nos marcou ao encontrarmos Rey, foi o aspecto de liberdade e criatividade que permeia sua epistemologia qualitativa. Em meio a tantos a priores da ciência dura, objetiva e instrumental, ela nos mostra que a pesquisa não é uma ‘camisa de força’ e sim uma transformação. Revisitamos o objeto transformando nossa compreensão sobre ele a cada momento da pesquisa.

A pesquisa qualitativa é fluída, volta-se para novos momentos teóricos e conhecimentos, além de valorizar e legitimar o lugar do singular, este que foi negado por muito tempo pela corrente Positivista[xi]. Ao fim e ao cabo, a epistemologia qualitativa de Rey permite a construção de uma ciência comprometida politicamente com os contextos que são únicos e nos mostram possibilidades alternativas de pesquisa construídas com criatividade e liberdade [xii].

Referências:

[i] REY, F. L. G. Pesquisa Qualitativa e Subjetividade: os processos de construção da informação.Tradução: Marcel Aristides Ferrada Silva. São Paulo: Cengage Learning, 2017.

[ii] REY, F. L. G. Pesquisa Qualitativa em Psicologia: Caminhos e Desafios. Tradução: Marcel Aristides Ferrada Silva. 1º Edição. São Paulo: Cengage Learning, 2011, p. 37.

[iii] REY, F. L. G. Pesquisa Qualitativa em Psicologia: Caminhos e Desafios. Tradução: Marcel Aristides Ferrada Silva. 1º Edição. São Paulo: Cengage Learning, 2011.

[iv] REY, F. L. G. Um olhar plural – simbolismo no campo dos estudos organizacionais. In: Palestra oferecida no III Ciclo de Conferências. Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Espírito Santo. 24 ago. 2007. Disponibilizado em: < https://www.youtube.com/watch?v=w3TW_8QHAbI>. Acesso em: 04 Dez. 2020.

[v] Idem item iii, p. 31.

[vi] Idem item i.

[vii] DIAS, M. S. L.; SOARES, D. H. P. Situações de risco: jovens sem projeto de vida? : a Construção de um objeto de estudo. Cadernos de Pedagogia Social. v. 02, 2008, p. 172..

[viii] REY, F. L. G. Pesquisa Qualitativa em Psicologia: Caminhos e Desafios. Tradução: Marcel Aristides Ferrada Silva. 1º Edição. São Paulo: Cengage Learning, 2011.

REY, F. L. G. Pesquisa Qualitativa e Subjetividade: os processos de construção da informação.Tradução: Marcel Aristides Ferrada Silva. São Paulo: Cengage Learning, 2017.

[ix] Idem item iii.

[x] A priori. Expressão latina: anterior à experiência. 1. Que é logicamente anterior à experiência e dela independe. 2. Em Kant, são a priori, quer dizer, universais e necessárias, as formas ou intuições puras da sensibilidade (espaço e tempo), as categorias do entendimento e as ideias da razão. 3. Ideia a priori: ideia preconcebida (e preconceituosa) ou hipótese anterior a toda e qualquer verificação experimental. In: GREGÓRIO, S. B. Dicionário de Filosofia. Disponibilizado em: <https://sites.google.com/view/sbgdicionariodefilosofia/p%C3%A1gina-inicial?authuser=0> Acesso em: 06 Dez. 2020.

[xi] Positivismo: Corrente de pensamento iniciada por Auguste Comte (1798-1857)  no século XIX “para quem a humanidade  atravessa três etapas progressivas, indo da superstição religiosa à metafísica e à teologia, para chegar, finalmente, à ciência positiva, ponto final do progresso humano” In: CHAUI, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000, p. 346.  

O Positivismo ancora-se em métodos que valorizam o que é observável e comprovável, em processos rígidos e lineares.   

[xii] Idem item i.

¹Doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
CARVALHO, Evelyn Raquel. A Epistemologia Qualitativa de Fernando Luis Gonzalez Rey. In: Nuevo Blog, 14 dez. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/12/14/a-epistemologia-qualitativa-de-fernando-luis-gonzalez-rey/. Acesso em: ??.

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