A COVID-19 e a exclusão dos excluídos (fora e dentro)

Juliana Cristina Teixeira¹

A pandemia FORA do pacto de ficar em casa:

Pessoas em Situação de Rua, Pretxs, Pobres, Periféricxs, Faveladxs, Quilombolas, Indígenas, População Cigana, Crianças em situação de vulnerabilidade (muitas!), População Carcerária, Trabalhadorxs (inclusive do grupo de risco, ainda nos ônibus), Os Entregadores de Aplicativos com o trabalho e desproteção agora duplicados (que às vezes a gente acha ruim de pedirem pra ir até o portão, e não terem que subir as escadas), A “Mocinha” do Caixa do Supermercado, O “Mocinho” da Portaria, A Moça da Limpeza (nem sei o nome, onde vive, quantos ônibus pega pra chegar até meu prédio, se filhos tem), a Empregada Doméstica (- “do que você sente mais falta?”, –  “da minha empregada, meu quarto tá sujão” – adolescente em rede social). Confrontados com um momento de exceção que nada tem de exceção, a não ser que a pauta neste momento afeta a branquitude. Afeta quem está historicamente atrelado a um pacto, esse, o da branquitude. E, geopoliticamente falando, afeta não só mais fortemente um Sul Global com mulheres latinas dos trópicos ainda perambulantes com seus bebês microcefálicos por conta do vírus zika[i].

Traz de exceção, também, que as insígnias que dantes vinham supostamente das periferias (vide o medo burguês em relação aos “criados”[ii]), agora tiveram um start inegável e explícito, no Brasil, do outro lado: o do asfalto. Escuto, neste exato momento em que escrevo, do asfalto, o barulho do caminhão de lixo passando na minha rua, recolhendo aquilo que eu, ao descer para levar, logo lavo muito bem as mãos depois de descartar.

Traz, também, de exceção, que os próprios excluídos se veem excluídos daquilo que os afaga no cotidiano: o afeto do toque, do abraço, do tapinha no ombro, aquilo que o afaga das insígnias de uma vida em que lata de sardinha é fichinha. Modelo de urbanidade e de cidade nefasto, que expõe milhares todos os dias, sim, à letalidade. Questionemos nosso modelo de gestão de transporte público, no qual ser sardinha é de praxe.  

A diferença durante uma pandemia como a do COVID-19 é que, estruturalmente falando, o projeto colonialista entra tanto em colapso que afeta até quem a necropolítica[iii] deixa viver. Em medidas bem desiguais, mas afeta. No início dos casos no Brasil, inclusive, vimos relatos de alguns casos de pessoas contaminadas recém-chegadas de outros países, ou que tiveram contato com pessoas nessa condição, se recusando a adotar o isolamento, e sendo judicialmente impelidas a. Não é muito fácil se acostumar a ser corpo rejeitado. Corpo que não se quer por perto (para servir, talvez, seja como servidão mesmo – “um cafezinho, por favor” – seja como o negro domesticado que eu aceito na minha empresa, ou no meu evento acadêmico pra dizer que tenho diversidade). A gente sabe como é ser corpo rejeitado. Mas alguns diriam que pra gente pode ser mais fácil. Porque toda essa colonialidade do saber e do poder nos ensinou a ser corpo disciplinado (“acredito que elas tragam no DNA memória dos tempos da escravidão” – patroa sobre empregada doméstica[iv]).

Quando é que vão aceitar nosso não costume? Quando é que o paradigma do lugar de fala[v] vai pesar, sem que de vitimistas vão nos acusar? A gente se acostumou a ser sujeito racializado, como se aquele construído como nosso oposto não o fosse. E é por isso que precisamos falar sobre o poder duradouro da branquidade[vi], e todos os atravessamentos de classe, de etnia, e de gênero que ele carrega. Sobre a branquitude como projeto político, como pacto que se alia cotidianamente. Que tipo de conhecimento produzimos? A quem ele serve? Que rompimentos promovemos com a branquitude como estrutura da colonialidade?  

E como a gente resgata os excluídos? É comum vermos, neste momento, sentimentos e ações empáticas surgindo, e comuns de se acontecer quando se vê o outro passando por necessidade, e se choca com uma situação explícita de desigualdade, em que apenas alguns possuem casas (e aí não falo nem de quem paga aluguel, pois se o salário não entra, não se mora), e apenas alguns podem ir, e ficar ali, em casa. Caridades são bem vindas neste momento, mas expõem a fragilidade do tal nefasto cotidiano em que a gente prioriza discutir aspectos como inovação de técnicas, processos e gestão, sem entender que falar de inovações sem contemplar desigualdades sociais é não romper com aquele mesmo pacto, o da branquitude. Expõem uma não alteridade devida na relação com a própria ideia de humanidade, essa que, num ato de caridade, tem que ser conferida por “um outro” que usufrui deste mesmo pacto. Autonomia? Privilégio da branquitude.  

Você pensa sobre os aspectos étnico-raciais e de classe quando estuda inovação organizacional, e nos impactos efetivos sobre uma garantia a longo prazo de humanidade não desigual? Longe geograficamente daqui, mas não em termos de colonialidade, a notícia é que médicos franceses sugerem que corpos africanos sejam cobaias para testes de vacina para o COVID-19[vii]. Nos Estados Unidos grupos extremistas incentivam pessoas brancas infectadas a transmitir o vírus para as pessoas negras[viii], em uma explícita continuidade de um projeto genocida de branqueamento social. Explícitos racismos epidêmicos.

Aqui não vimos ainda isso explícito, não em março e abril de 2020. Brasil, período escravocrata: meninas negras escravizadas “entregues virgens, ainda molecas de doze e treze anos, a rapazes brancos já podres da sífilis das cidades[ix] sob a crença de que desvirginá-las seria um meio de se curar (FREYRE, 2003, p. 400). Aqui, o mundo também gira, também capota, mas quem segue caindo é quem às vezes não tem nem sabonete; ou quem cria sua prática própria de limpeza, sem nem chuveiro em lugar fechado; ou quem tem nem água. Ou quem tem, mas a divide em um micro espaço, sei lá, um cárcere, por exemplo.  Temos corpos excluídos do pacto de ficar dentro de casa, mas incluídos e úteis na biopolítica[x] de definir quem serão os corpos dóceis. São partes incluídas nos mecanismos necropolíticos do sistema para que outros sejam privilegiados pela possibilidade de adesão ao pacto. Racismos epidêmicos implícitos, velados como é a identidade do racismo à brasileira.

Nem mais tão velados assim, no entanto. Expõem-se as fissuras de um Estado historicamente conduzido por governos que não se entendem enquanto Estados. Expõem-se as fissuras de um Estado que abraça, e põe a mesa para o Mercado. Migalhas são celebradas assim como são os contratos de trabalho intermitente (“melhor que nada”). Hummm… isso me lembra algo: mesa posta, alguns sentados, alguns servindo, e duas crianças pretas ao chão, recebendo migalhas da distinta senhora branca, memórias de uma famosa pintura de outrora (pintura de Debret retratando o período colonial brasileiro[xi]). Um outrora que é, ainda, o agora.

E aí eu digo que o momento, além de se teorizar e se pensar sobre o Estado, como um ente quase que imaginário, ou abstrato, é pensar na concretude do que nossas mentes produzem, e para que(m) produzem.

O pacto produzido pela COVID-19 é ficar em casa.

Casa.

Cas.

Ca.

C.

.

Com qual pacto você rompeu hoje pra que este pacto pudesse existir?

A Pandemia DENTRO do pacto de ficar em casa:

Eu poderia terminar com o questionamento ali em cima, mas acho caro um prolongamento da discussão: OK, você tem casa pra viver agora, e está em casa. Com qual pacto você rompe estando dentro dela?

Os excluídos não estão só lá fora. Podem estar dentro, no cotidiano.  

Reconhecer, numa dinâmica que parece um rompimento com o pacto da branquitude, que a empregada doméstica (sua ou dos outros (ah, a posse!)) tem que ficar lá na casa dela já é um avanço, mas não é o suficiente. Pois não estou falando de colonialismo, estou falando de colonialidade. E, falando de colonialidade como algo que permanece, que atinge mentalidades e modos de pensamento e de vida, deixar que só outros limpem a sua sujeira (pode ser sua mulher, pode ser sua mãe) diz muito sobre a colonialidade do saber do trabalho doméstico relegado a um plano inferior. Diz inclusive sobre o que você pode até militar sobre, mas não vive.

A necessidade de voltar pra dentro tem sido uma grande tônica de discussão pra quem está com a casa OK, e a comida OK. E aí, voltar pra dentro da própria prática em relação ao que se adota como discurso, seja nas redes sociais, seja entre os amigos, seja na escrita é, por exemplo, fundamental.  

O pacto produzido pela COVID-19 é ficar em casa.

Casa.

Qual pauta te faz ganhar toda a eloquência do mundo pra combater fora de casa, e qual você deixa pra lá pra evitar o trabalho “nojento”, dentro de casa?

Terminei. Cuidemo-nos. Com puxões de orelha, mas de afetos. Que afetam.

Referências:

[i] DINIZ, Débora.; CARINO, Giselle. A necropolítica das epidemias. EL PAÍS: 09 mar. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-09/a-necropolitica-das-epidemias.html>. Acesso em: 16 abr. 2020.

[ii] RONCADOR, Sônia. Histórias paranoicas, criados perversos no imaginário literário da Belle Époque tropical. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 27, p. 127-40, jan./jun. 2007.

[iii] MBEMBE, Achille. Necropolitics. Duke University Press, 2019.

[iv] TEIXEIRA, Juliana Cristina.; CARRIERI, Alexandre de Pádua. As patroas sobre as empregadas: discursos classistas e saudosistas das relações de escravidão. In: BRASIL. Construindo a Igualdade de Gênero. Brasília: PR, SPM, 2013,  p. 31-68.

[v] RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019.

[vi] WARE, Vron. O poder duradouro da branquidade: um problema a solucionar. In: WARE, V.Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, Afro, 2004. p. 7-40.

[vii] BBC. Coronavirus: France racism row over doctors’ Africa testing comments. UK: 3 abr. 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/news/world-europe-52151722>. Acesso em 15 abr. 2020

[viii] TIME. White supremacist groups are recruiting with help from Coronavirus – and a popular messaging app. USA: 8. Abr. 2020. Disponível em: <https://time.com/5817665/coronavirus-conspiracy-theories-white-supremacist-groups/>. Acesso em 15 abr. 2020.

[ix] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 48ª edição. São Paulo: Global, 2003. p. 400.

[x] FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 10. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1992. 295p.

[xi] Idem nota VII. p. 238.

¹Doutora em Administração pelo CEPEAD/UFMG. Pesquisadora do Núcleo de Estudos Organizacionais e Sociedade – NEOS/UFMG. Professora Adjunta do Departamento de Administração do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo (DADM/CCJE/UFES). Líder do Tema Diferenças e Desigualdades: articulando Raça-Etnia, Gênero, Sexualidade e Classe no mundo do Trabalho da divisão de EOR na ANPAD. Membro-fundadora da COMPA – Comunidade de Mulheres Pesquisadoras da Administração.

Como citar:
TEIXEIRA., Juliana Cristina. A COVID-19 e a exclusão dos excluídos (fora e dentro). Nuevo Blog, 28 abr. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/04/28/a-covid-19-e-a-exclusao-dos-excluidos-fora-e-dentro/. Acesso em: ??

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