Rest In Power, David Graeber

Lucas Casagrande¹

É 2020 e é difícil engolir mais essa, mas David Graeber morreu. E se, pra você, esse nome não diz nada, deveria.

Graeber foi um cara importante para as lutas anticapitalistas recentes, como o movimento Occupy. Muitos dizem que o slogan “Somos 99%” veio dele – e, se não veio, porque essas coisas geralmente são criações coletivas – ele certamente ajudou a popularizar. Graeber também trouxe ao ocidente, quando isso ainda era novidade, em 2014, a fantástica revolução que estava ocorrendo – e ainda ocorre – em Rojava. Como teórico e antropólogo, cunhou algumas ideias que se tornaram famosas, como a ideia de dívida (e não a troca) como sistema moral do capitalismo, a ideia de “empregos de merda” como estratégia do capitalismo recente (que desconfio que ele pegou de Illich, mas isso é outra discussão), e a teoria do valor antropológico.

Meu primeiro contato com sua obra foi “Fragmentos de uma Antropologia Anarquista”, traduzido pelo Coletivo Protopia e publicado pela Editora Deriva. Apesar de ser um livro breve, é uma obra brilhante por dois motivos. O primeiro é porque demonstra que, apesar de todos pesares, é possível fazer uma ciência libertária, uma ciência que não trabalhe do lado de quem tenta escravizar o vernáculo. O segundo motivo é que, apesar da falta de ortodoxia anarquista, demonstra que uma ciência longe das esferas de dominação é possível.

Mas Graeber parece ter se tornado um superstar só anos depois, com a publicação de “Dívida: os primeiros 5.000 anos”. Ali ele basicamente argumenta que o capitalismo é, mais do que um sistema econômico, um sistema moral. Afinal, sob o capitalismo, é mais justificável uma pessoa agredir fisicamente outra por dívida do que por qualquer outro motivo. É esse sistema moral que permite que a religião da austeridade no âmbito público tenha se tornado tão consensual. Afinal, sob a lógica da austeridade, faz mais sentido um sistema de saúde não ter dinheiro e que pessoas morram do que milionários levem calotes e recebam seu dinheiro emprestado. Isso, por certo, só pode fazer sentido quando há uma moralidade que trata certas discussões como tabu.

No lugar dessa moralidade insana, David defendia o comunismo. Mas, por certo, não o socialismo bolchevique ou o maoísta, certamente não um regime de Estado. Defendia a lógica do “de cada um conforme suas habilidades; para cada um conforme suas necessidades”. Argumentava que isso ocorria o tempo todo na nossa vida, nas organizações cotidianas que formamos. Da organização da parada de ônibus à organização do ambiente de trabalho quando o chefe se ausenta (e que, como muitos já notaram, costuma funcionar muito bem).

Esse comunismo, defendia, também era uma forma de organização social de algumas experiências notáveis, como os Zapatistas no México ou o povo de Rojava. Em uma de suas últimas entrevistas, notou que essas regiões foram as que melhor lidaram com a pandemia de COVID-19. Por um lado, conseguiram reduzir o número de casos a quantidades ínfimas, ao contrário do que países regidos por governos neoliberais fizeram; por outro, não se utilizaram de nenhuma estratégia autoritária, como lockdowns ou obrigatoriedades. Auto-organização, Graeber argumentava, dá agência às pessoas e, assim, não as limita, por um lado, nem as compele, por outro.

David também era um realista com viés otimista, que via possibilidades de um mundo melhor emergindo como decorrência da própria falência do capitalismo. Penso que isso torna sua morte ainda mais terrível. Ele percebeu que as promessas que o capitalismo trouxe a gerações passadas, tais como aumento de riqueza constante, promoção de melhorias tecnológicas que tornariam a vida melhor e estabilidade social, estão ruindo. Afinal, olhe ao redor: você acha que a hegemonia capitalista pode manter alguma dessas promessas, hoje em dia, sem ser ridicularizada? Ao fim, David lembrava, o que sobra do capitalismo, que nos mantém refém desse sistema, é a moralidade da dívida e a moralidade do trabalho. Uma moralidade vazia, ausente de promessas, que pode ser destruída ou revertida.

Esta última moralidade é tema do seu último livro, “Bullshit Jobs” (“Trabalhos de merda”, em uma tradução livre, já que não tem tradução ainda pro português). Da mesma forma que, na moralidade do capitalismo, caloteiros são vistos como pessoas horríveis em uma sociedade injusta, vagabundos também o são. Esta visão ocorre mesmo dentre aqueles que possuem empregos que odeiam, com chefes que detestam e que genuinamente acham que o mundo estaria melhor sem suas funções. De alguma forma passamos a consensuar que mesmo os empregos mais danosos, de operadores de telemarketing ativos, passando por milicianos e chegando até operadores do mercado financeiro, são melhores opções do que “vagabundear”. Ou, ainda, que são papéis sociais melhores do que ser subsistente. Isso, Graeber apontava, é fruto de uma moralidade que não condiz mais com o mundo em que vivemos. Nesse capitalismo tardio, pautado por uma moralidade que se esvazia de promessas de um mundo melhor, indígenas são vistos como vilões frente aos garimpeiros que poluem rios; quilombolas são vistos como vagabundos frente aos grileiros que destroem florestas nativas, e assim por diante.

Nesta mesma obra, David argumenta que quanto mais útil um trabalho é, menor a chance de ser remunerado. Na verdade, notou, a remuneração em um sistema capitalista é proporcional ao poder – e não à produtividade ou à utilidade, discordando de boa parte dos economistas. Ao fim, o capitalismo é um sistema que concentra renda a quem tem poder, e dá poder a quem é inescrupuloso. A esta altura do desenvolvimento desse sistema, fica cada vez mais difícil justificar sua existência.

Está na hora de pensar um sistema social amoral e em uma divisão do trabalho baseado em uma lógica dos comuns. E era isso que David estava fazendo, por isso, também, sua morte pesa tanto. Mas dizem que as pessoas morrem duas vezes: quando param de respirar e quando seu nome é lembrado pela última vez. A primeira morte de David Graeber foi em 2 de setembro de 2020, em Veneza. Tratemos de evitar a segunda.

David Graeber morreu; vida longa à David Graeber!

¹Doutor em Estudos Organizacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da UFRGS. Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Como citar:
CASAGRANDE, Lucas. Rest In Power, David Graeber. In: Nuevo Blog, 05 out. 2020. Disponível em:  https://nuevoblog.com/2020/10/05/rest-in-power-david-graeber/ . Acesso em: ??

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