Crônica de um papo de ônibus com o corona vírus!

Eloy F. Casagrande Jr.¹

Sentei-me no fundo, onde tinha poucas pessoas, ia logo pegando na barra de metal do banco da frente, quando ouvi:

– Alto lá, olhas onde põe as mãos, pô! Não sabes que estamos aqui de carona no buzão?

Olhei mais atentamente, e lá estavam eles, todos aglomerados com aqueles chifrinhos para todos os lados e carinhas de inocentes!

– O que vocês estão fazendo aí, afinal? Indaguei, – Não deviam estar na China, na Itália, nos Estados Unidos?

– Muito prazer, mal educado, Sars-Cov-2 e eu já estou aqui há uma semana e também lhe pergunto, afinal o que você está fazendo aqui, me retrucou o maiorzinho! Não devias estar quieto em casa, não viste as recomendações do teu ministério da saúde? Dos cientistas? Cadê a tua máscara?

Tentei-me explicar! Que tinha de ajudar a economia a não parar, que precisava trabalhar, que o patrão me obrigava!

Ele riu! – Olha só, pessoal mais um daqueles! Já ouvimos toda esta conversa antes dos chineses, italianos, espanhóis, ingleses…vocês são uma raça duro de entender as coisas mesmo! Estamos aqui, viemos para ficar, dar um rolê pelo mundo, viajar, curtir! Você até nos batizaram com um nome de uma cerveja! A festa para nós só começou!

– Mas vocês não estavam bem onde moravam? Não tinham tudo por lá?

– Tínhamos sim. Estávamos bem quentinhos no nosso canto, éramos felizes! Até aparecerem vocês, derrubando a mata, pegando os bichos onde a gente se alojava, levando para as suas cidades poluídas e cheias de gente! Aí não teve jeito, né! Tivemos de achar outro hospedeiro!

– É, a gente cometeu um erro grande! Aliás, já faz muito tempo que minha espécie se comporta mal! Não respeitamos mais a natureza, achamos que tudo é infinito, produzimos, consumimos, poluímos, não observamos que somos nós também um vírus! Entendo vocês!

– Pois é, meu camarada agora é aguentar! Você sabe que houve vários primos antes que alertaram que a coisa era séria! Lembra da gripe suína, o H1N1, o ebola? Sem dizer, aquela dos nossos avós e que matou mais de 50 milhões da tua espécies e vocês chamaram de Gripe Espanhola, lembra, em 1918 e 1919? Nossos avós não eram fracos, mataram mais gente em dois anos do que os quatro anos de duração da Primeira Guerra Mundial! Quem sabe a gente quebra o recorde deles! Já embalamos em sacos plásticos pretos mais de 65 mil de vocês e só em três meses! E já passamos a barreira do 1 milhão de infectados!

– Eu lembro da Gripe Espanhola sim! Muito triste, mais, como você disse, o povo aqui é teimoso mesmo!

– Pois é, vimos isto! Para nós foi ótimo, sabe, a gente gosta de uma festinha, de uma aglomeração, o pessoal aqui é bem animado! Depois que saímos da nossa casa, começamos a gostar mais do mundo de vocês. Pensamos até em esticar um pouco nossa estadia para esses lados!

– Vocês estão loucos! Não, não façam isto, está morrendo muita gente, muito netinho ficando sem seus avós, filhos perdendo mães, pais perdendo filhas! Vocês estão acabando com a gente! Podiam ser mais misericordiosos!

– Mas não fomos nós que começamos! Teve até um presidente da França que disse que vocês estão em guerra! Então, guerra é guerra, cada um se defende como pode, não é? Veja bem, cada um tem um papel neste Planeta, o nosso é encontrar uma célula e se reproduzir, somos apenas um RNA, temos de sobreviver também, não achas? Temos direitos como qualquer espécie! Porque vocês se acham superiores, afinal?

– Mas porque não ficaram só na China, então? Tentando racionalizar com a criatura.

– Cara, você não entende! Vocês que globalizaram tudo, só entramos no jogo! A gente ia ficar somente em Wuhan, mas vimos que era apenas uma vila, perto do que poderíamos conquistar! Começaram também todo aquele ritual de higiene, lavar as mãos, usar luvas, máscaras…blábláblá! Então saímos pela China, demos uma esticada até o Japão, a Coreia do Sul! Até poderíamos ficar na Ásia, mas você sabe, o povo de lá tem mais disciplina. Não é como vocês aqui no Brasil! Criaram este tal de “isolamento social”, ficavam em casa, obedeciam as regras radicalmente! Começaram a descobrir a gente antes com aqueles malditos testes! Aí tivemos de vazar, né?

– Mas vocês já não tinham infectados bastante gente por lá? Só na China vocês atingiram mais de 83 mil e chegando quase a 5.000 mortes!

– Sim, mas esta é a nossa natureza, véio! Expandir, expandir, expandir, como vocês! E tem outra coisa, começamos a adorar viajar, é o “must”! De ônibus, trem, avião, de navios cruzeiros, este então é uma maravilha, aquela gente toda junta em alto mar, na piscina, salão de jogos, restaurantes, sauna…eita festa!

– Mas porque o Brasil agora, a Europa não estava legal? Vocês já haviam se adaptado.

– Estava, mas só no começo! A gente até se divertiu muito, ver aquelas cidades históricas, museus, óperas, shows, pegamos até uns jogos da Champions League! Visitamos algumas igrejas e templos, pois tem um pessoal de nós bem religioso também, sabe! Quando chegamos o pessoal estava todo na rua, nas gôndolas de Veneza, no centro de Milão, o cidadezinha agitada aquela, no coliseu de Roma, no Quartier Latinde Paris, na Gran Via de Madrid, Las Ramblas de Barcelona! Mas daí começou a ficar chato quando as pessoas começaram ser mais obedientes! De novo, o tal do “isolamento social”, o saco! Os caras começaram a cantar em varandas, a ser solidários uns com os outros! Até cancelaram o Salão de Milão, pô!

– Mas porque não foram somente para os Estados Unidos. Porque vieram também para o Brasil?

– Ora, aproveitamos este povo rico que pode andar de um lado para outro no Planeta! Então a gente se dividiu, uns foram para os States, aqueles que curtem o “American way of life”, Manhattan, Broadway, Disney, toda esta parada! Lá os companheiros estão indo muito bem, aquela loucura toda de consumismo e um tal de Trump que chamou a gente só de uma “gripe”, mexeu com os brios do pessoal! Nossa meta é chegar a um milhão de hospedeiros e estamos quase lá! Pena que mais de 40 mil não resistiram! E tem uns primos que preferiam o calor! Olhamos para o mapa e vimos o Brasil! Carnaval, praias, samba!

– Mas aqui não é muito calor para vocês, ouvi dizer que gostavam mesmo era do frio, onde podiam se reproduzir mais facilmente!

– Isto é um mito, sabe, mais um! Estamos aproveitando que ainda não sabem muito sobre a gente! Além do mais, vimos que o pessoal aqui adora um fake news!  Também ouvimos que o carnaval de vocês era o máximo, gente aglomerada nas ruas, suada, se abraçando, se beijando, e ainda por cima todas aquelas praias cheias, que maravilha, pensamos! Sabe, já estávamos cansados do frio, queríamos pegar gente bronzeada, bonita! O Brasil é um banquete para nós!

– E vocês vão ficar muito tempo ainda?

– Olha, no começo a gente pensou que vocês iriam se comportar como os chatos do asiáticos e europeus, ouvindo os cientistas, os médicos especialistas e aprendendo com os erros deles! Mas daí, vimos que vocês tinham um presidente que disse que nós éramos uma “fantasia”, uma “gripezinha”, parecia o outro lá do States, e tinha gente ainda aplaudindo, foram lá dar abraços, rezar junto! Isto nos animou, então eu falei para a turma: Opa, aqui tem terreno fértil! Já infectamos uns 45.000 e pelo menos uns 3.000 não aguentaram o tranco e olha que ainda temos muita bala na agulha!

– Mas não são todos assim, tem muita gente que está cumprindo com o isolamento social. Eu que estou aqui, porque meu chefe me obriga, se não for trabalhar, perco o emprego!

– Sim, estamos vendo uns até bem comportados, mas tem muita gente que gosta do risco, não acredita porque não nos vê! Ainda tem uns caras bem gananciosos que nos dão uma forcinha, adoramos esse tal de “Véio da Havan” e este outro fritador de hambúrgueres! Também tivemos uns pastores malucos, Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, negando nossa existência! Este último então, levantou nossa bola, disse que éramos uma “vingança divina”! Depois nós que somos uma ameaça! Contamos sempre com estes caras para nos ajudar, em todos os lugares há estes tipos! É simples, contamos com a ganância de alguns, que influenciam os ignorantes e voilà (é, aprendemos alguma coisa na França), temos os pratos na mesa!

– Então não podemos ter esperança de vocês partirem logo?

– Tudo depende! Como disse, a gente vai saindo conforme vocês vão se comportando! Já sacamos que o sistema de saúde de vocês é bem precário, que vocês não se prepararam, que deram importância a voz de um presidente paraquedista do que a aos médicos, de que devia-se fazer cortes na saúde e teve até carreatas, uma turma chique de carrões e máscaras pedindo para abrir o comércio! Eita circo bom este! Só estamos esperando a oportunidade, pegamos os trabalhadores e depois pegamos esta turma toda! Quer dizer, ainda podemos fazer bastante estrago! E nem chegamos nas favelas, hein! Com tanta falta de saneamento e esta gente toda vivendo amontoada, vamos fazer a maior festa na laje! Agora, diga lá, é nossa culpa?

– Sim, você tem razão, a omissão de anos de falta de planejamento urbano, saneamento e desigualdade social, agora cobra seu preço!  Mas pelo menos agora já temos alguns cientistas alertando sobre vocês, as universidades se mobilizando, trabalhando na busca de tratamentos, fabricando álcool gel, máscaras protetoras, respiradores!

– Estamos acompanhando. Irônico, não é, ouvimos dizer que professores e cientistas eram bem mal tratados por aqui! No entanto todo este esforço pode demorar muito e contamos com este tempo, enquanto isto vamos infectando por aí! Sabes bem que quando nos descobrem num corpo com sintomas, há muitos outros sem sintomas repassando-nos para novos hospedeiros! Como vocês não tem testes suficientes, vamos ter muitos hospedeiros disponíveis! Lei da sobrevivência, cara!

– Vocês querem dizer que vieram para ficar?

– Você sabe que está tua conversa aqui é uma ilusão, não! Que você está num sonho ou melhor, num pesadelo. Mas fui com tua cara, me pareces um cara legal, pena estar no lugar errado e na hora errado! Podemos sim, ficar por muito tempo. O mundo que conheces agora nunca mais será igual, nem mesmo depois que descobrirem um vacina contra nós, não se iluda! Então fica um conselho, melhor mesmo é você ficar em casa! Negocia com teu chefe, entra na justiça pelo teu direito a vida, se organize com teu sindicato, pede demissão, sei lá! Isto é com você se quiser se proteger e proteger tua família! Não deixa teus filhos ir para escola. Faça tuas compras por delivery, se exercite em casa, se alimente bem, faça uma horta, cuida do teu corpo e da tua mente e sobretudo reflita sobre tua vida neste Planeta que tanto mal tratam! E se acreditar em algum Deus, reze para ele, você já sabe, não consegues nem te despedir daquele que levamos! Somos assim, é da nossa natureza!

¹Pós-doutor em Inovação e Sustentabilidade pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa (IST, Portugal), PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Universidade de Nottingham, Reino Unido. Professor do Programa de Pós-graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE), do Departamento Acadêmico de Construção Civil e Coordenador do Escritório Verde da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
CASAGRANDE Jr., Eloy F.. Crônica de um papo de ônibus com o corona vírus. Nuevo Blog, 25 abr. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/04/25/cronica-de-um-papo-de-onibus-com-o-corona-virus/. Acesso em: ??

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