O Pseudo Empreendedorismo Brasileiro

Thiago Cavalcante Nascimento¹

O tema empreendedorismo ocupa um espaço de discussão bastante amplo nas áreas de negócios, mas não se limita a elas. É possível visualizar propagandas na televisão estimulando pessoas a se tornarem empreendedores, livros com belas capas e títulos fortes que prometem um determinado número de passos para ser um empreendedor de sucesso, conquistar clientes, entre inúmeras outras promessas um tanto falaciosas.

O tema começou a ganhar espaço após a publicação do livro Teoria do Desenvolvimento Econômico por Joseph Alois Schumpeter que, apesar de mudar substancialmente sua concepção do papel do empreendedor ao longo de sua obra estabeleceu as bases que culminaram com a ascensão do debate acerca do empreendedorismo na dinâmica econômica.

Basicamente, Schumpeter inseriu o empreendedor em sua teoria de desenvolvimento econômico, como sendo o sujeito responsável por inserir novas combinações (inovações) da atividade econômica, financiadas por capitalistas (bancos) por meio de um processo de destruição criadora. Essa dinâmica seria a chave para o desenvolvimento econômico, pois permitiria ciclos virtuosos de crescimento ao longo do tempo.

Deste conceito basilar, é importante depreender alguns elementos centrais. O primeiro deles diz respeito ao papel do empreendedor em “destruir” e “criar”, de tal maneira que surjam novas cominações que possam ser inseridas na dinâmica econômica (inovação), ou seja, o empreendedor schumpeteriano está voltado essencialmente para a inovação. O segundo elemento, diz respeito ao financiamento da atividade do empreendedor por meio de um capitalista que assumiria os riscos do empreendimento.

Alguns países parecem ter aprendido a receita e criaram verdadeiros ecossistemas para fomentar e financiar esse tipo de empreendedorismo; um deles, situado na Califórnia e idolatrado por muitos brasileiros é conhecido como o Vale de um determinado elemento da tabela periódica. No entanto, diversos ecossistemas semelhantes se desenvolveram no mundo, incluindo uma cidade chinesa focada em “hackear” tecnologias. Enquanto isso, no Brasil, a situação está mais para precipício mesmo, conforme alguns dados amplamente conhecidos por profissionais da área.

De acordo com o GEM – Global Entrepreneurship Monitor (2018), o Brasil possuía naquele ano aproximadamente 52 milhões de brasileiros de 18 a 64 anos envolvidos com alguma atividade empreendedora. A princípio esse número poderia indicar que o país é um “celeiro” de empreendedores, mas quando analisamos uma pouco mais as informações deste relatório, é possível verificar que cerca de 24,5 milhões de brasileiros e brasileiras se tornaram empreendedores remunerados a menos de 42 meses (3,5 anos).

Outras informações chamam a atenção do leitor disposto a refletir criticamente sobre a realidade desses empreendedores, como o fato de que cerca de 47,4 milhões possuir escolaridade até o ensino médio, mais de 42 milhões não gerar nenhum emprego e cerca de 50% ter faturamento anual de até R$ 12.000,00 (doze mil reais). Alinhado a isso, o SERASA monitora anualmente o número de empresas registradas no país. Os dados indicam uma evolução de 1,528 milhões de empresas abertas em 2010 para 2,534 milhões de empresas em 2018, o que novamente, poderia ser um indicativo da pujança econômica nacional. No entanto, 81,4% correspondiam a microempreendedores individuais.

Se a concepção schumpeteriana de empreendedorismo, que é tão utilizada nos estudos no ambiente acadêmico e que, a princípio, deveria subsidiar a formulação de políticas públicas, for minimamente levada a sério, não vai ser difícil identificar que estes milhões de brasileiros não são empreendedores e sim, pessoas sofrendo um acentuado processo de desemprego acompanhado da precarização das relações de trabalho.

Desta forma, o que o Brasil realmente tem como empreendedorismo é, na verdade, um pseudo empreendedorismo, principalmente se estivermos falando do empreendedor schumpeteriano. Assim, o que o país realmente tem sobrando são milhões de desempregados, poucos empresários e raros empreendedores.

Enquanto essa realidade se acentua, serviços de apoio estão mais preocupados em vender cursos e receitas prontas do que atuar, efetivamente, para a criação de um ambiente de negócios mais adequado para estes milhões de brasileiros que estão sendo excluídos do tradicional mundo do trabalho.

Não bastasse o abandono destes órgãos, a própria academia parece estar mais preocupada em aderir a “modismos” e discutir trivialidades do que atuar efetivamente na compreensão e proposição de elementos que possam melhorar a vida destas pessoas. Assim, continuamos consumindo literatura sobre angels, elevator pitch, founders, hackaton, dentre inúmeros outros termos que não temos nem muita vontade de traduzir para não perder o charme.

¹Doutor em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Coordenador e Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Como citar:
NASCIMENTO, Thiago Cavalcante. O Pseudo Empreendedorismo Brasileiro . Nuevo Blog, 14 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/14/o-pseudo-empreendedorismo-brasileiro/ . Acesso em: ??

5 pensamentos

  1. Parabéns pela sua colaboração Thiago, gostaria ainda de permitirmo-nos a uma auto reflexão. Como, ao menos em nossa cidade, poderíamos modificar essas afinidades deturpadas com o Empreendedorismo.

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  2. Prezado Professor,

    Concordo plenamente com a sua análise. Já há algum tempo tenho feito observações e ponderações acerca desse marketing exacerbado que suplanta a falsa idéia de sucesso certo e transfere de forma velada as responsabilidades sociais do mercado de trabalho ao indivíduo, por pura incapacidade de gestão governamental. Ainda, arrisco dizer que esse mercado de “venda de receitas de sucesso” foi perspicaz ao fazer com que o público (em sua grande maioria), acredite que a sua necessidade de busca de subsistência, seja de fato espírito empreendedor.
    Seu artigo é excelente, obrigada!

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