Reflexões sobre o mundo real e o mundo virtual: o pré e o pós-pandemia

Bianca Gomes Lima da Rocha¹

Janaína Alves More²

Eis que chega a pandemia e, com ela, um misto de sentimentos. A imprescindibilidade de distanciamento social, para que se minimizem os efeitos provocados pela disseminação da COVID-19, põe indivíduos em uma posição desconfortável. Isso pois, como afirmou Marx, o ser humano é, por natureza, um animal social: necessita viver em grupo e a sociedade é fundamental para seu desenvolvimento enquanto sujeito. Assim, o distanciamento necessário hoje vai de encontro a essa premissa, impedindo o convívio e contato direto entre pessoas.

Neste momento, podemos identificar que o sentimento de saudade dos tempos pré-pandemia aflora: a vontade de encontrar os avós e abraçá-los; a de sair com os amigos e conversar a noite inteira; a de levar o amor para jantar em um bom restaurante; a de se emocionar em shows ao vivo dos cantores favoritos. Contudo, uma questão deve ser levantada: o ser humano social tem, de fato, valorizado tais momentos que hoje, com o isolamento, são tão desejados? Seria ingênuo considerarmos que sim. Na verdade, o ser humano contemporâneo seria mais um animal das redes sociais do que simplesmente social, porquanto vive hiperconectado nos ciberespaços e hipervaloriza os momentos e encontros virtuais.

O exercício de pensar se realmente estamos vivendo plenamente aquilo que o mundo real tem a oferecer já nos faria perceber, certamente, o quanto perdemos estando mais disponíveis ao mundo virtual. Quantas vezes visitamos nossos avós e, em pouco tempo, estamos conferindo fotos novas do Instagram; acompanhando o trend topics do Twitter; discutindo política no Facebook? Quantas vezes saímos com nossos amigos e, entre um papo e outro, todos puxam seus celulares dos bolsos e iniciam conversas com pessoas que não estão ali? Quantas vezes saímos para jantar com nossos amores e nos preocupamos mais em fotografar nossos pratos para publicar nas redes sociais? Ou quantas vezes vamos a um show e, ao invés de aproveitar o espetáculo, passamos grande parte do evento filmando e fotografando para postar nas redes sociais?

Fica claro que a saudade que tínhamos do mundo pré-pandemia e, mais especificamente, das relações e momentos reais, estavam, na realidade em segundo plano. Os ciberespaços impregnaram nossas vidas ao ponto de não conseguirmos, na maioria das vezes, saborear aquele chá que só a vovó sabe fazer, acompanhado com aquele bolo de laranja quentinho que o vovô preparou. Ao ponto de entrarmos em restaurantes e nos depararmos com pessoas vidradas em seus celulares, sem falarem uma palavra com aqueles que os acompanham, enquanto a comida escolhida minuciosamente esfria sobre a mesa. Ao ponto de gastarmos um tempo enorme escolhendo a foto perfeita, a legenda incrível e a luz ideal, bem como acompanhando cada curtida e respondemos cada comentário de imediato, ao invés de aproveitarmos o momento romântico. E, por fim, ao ponto de nem percebermos que os espetáculos que nos propomos a assistir, e pagamos por aquilo, estavam por chegar ao fim.

Os ciberespaços, na pré-pandemia, contribuíram, como alertou Bauman, para um cenário cujas relações se tornaram cada vez mais líquidas. Esses locais virtuais se firmaram como um substituto do convívio – que, por definição, significa viver em proximidade com o outro. Em tempos hipermodernos, no qual nossa atenção não consegue se fixar em momentos mais importantes, corremos o risco de perder o que resta de nossa sensibilidade em relação aos outros: simplesmente ficamos em nosso mundo virtual e banalizamos nossos laços afetivos.

De certa forma, o ser humano sempre teve medo de deixar de existir. Mas o nosso individualismo, aliado a esse medo, é potencializado pela tirania tecnológica, na qual só existimos se fizermos parte dessa rede que nos induz a espionar a vida do outro sem a menor pretensão de fazermos parte dela, sem o menor compromisso com o outro. Estamos lá apenas por nós, para preencher o vazio das nossas vidas com o vazio de outras vidas – suas dores, suas alegrias – sem a intenção de permanecer. Estamos lá apenas como espectadores e nossos vínculos reais cedem cada vez mais espaço para o mundo virtual.

Contudo, diante da metáfora líquida do descompromisso com o outro, o momento de pandemia, paradoxalmente, revela pessoas que clamam por relações reais, queixando-se do isolamento, lamentando a falta de contato físico e perda de vínculo. Um vínculo que estava lá, na vida pré-pandemia. Tal momento, no qual nos encontramos em crise e interrompemos a trajetória que nossas vidas trilhavam é revelador: as redes sociais, que supriram por tanto tempo nossas carências não nos imortalizam, pelo contrário, nos faz perder, de modo tão sutil, momentos imprescindíveis que compõem a vida.

Tais apontamentos nos fazem pensar o futuro, sem pretensão distópica. Será que a promessa de entrega ao outro realmente se cumprirá? Será que deixaremos as máscaras que compuseram por tanto tempo os nossos disfarces, que garantiam nosso ingresso no mudo virtual, para vivermos de cara limpa a realidade? Será que este momento obscuro nos transformará? Passaremos, enfim, a ouvir o que a vida nos pede?

¹ Mestra em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

² Mestranda em Administração pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Como citar:
ROCHA, Bianca G. L.; MORE, Janaína A. Reflexões sobre o mundo real e o mundo virtual: o pré e o pós-pandemia. Nuevo Blog, 28 maio 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/05/28/reflexoes-sobre-o-mundo-real-e-o-mundo-virtual-o-pre-e-o-pos-pandemia/ . Acesso em: ??

3 pensamentos

  1. Muito bom o texto da Bianca GL Rocha e da Janaína More! questiona o real comportamento humano nos ciberespacos, fazendo-nos refletir a respeito do que importa! Desconcerta e, também, desconserta a postura social nos ambientes real e virtual na hipermodernidade. 👏

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