Considerações sobre o estudo “No limite da razão: o deliberar e a phrónesis no trabalho Prisional”

Fonte: Ponto Poder (17 set. 2019).

Déris Oliveira Caitano¹

Maurício Serva²

Um agente penitenciário chega para cumprir seu plantão, como em toda organização, ele tem um quadro de atividades estabelecidas de acordo com seu cargo e sua função. O trabalho deve seguir uma rotina de tarefas sequenciais divididas entre cada um dos plantonistas que manterá a organização em funcionamento.

Todavia, em certas ocasiões, o barulho dos pés dos detentos batendo contra as portas de aço se torna ensurdecedor e tem início “a bateção”. Nesses casos, a sensação descrita pelos agentes é de que os presos “vão pôr a cadeia abaixo”.  Em poucos instantes, a manifestação será reproduzida em cada uma das celas e em todos os pavilhões, sinal de que algo está fora do controle. Pode ser uma briga, uma emergência médica, ou mesmo uma morte. Mas também poderá ser o início de uma rebelião. O agente que estiver naquela ala vai se dirigir até o corredor, abrir a portinhola na tentativa de identificar a causa da manifestação. A forma da abordagem e da intervenção determinará o fluxo dos acontecimentos, os quais são imprevisíveis.

Situações igualmente críticas ocorrem no trabalho da polícia, dos bombeiros, dos médicos e plantonistas de uma emergência hospitalar. Estamos falando de gestão em organizações que atuam sobre frequentes situações complexas e contingenciais. Enquanto, comumente, na administração discute-se a gestão a partir de uma ciência que tem em suas bases o princípio da racionalização e da especialização do trabalho, que entende que o trabalho poderá sempre ser fragmentado em inúmeras pequenas partes, estabelecendo uma cadeia de responsabilidade diluída entre o corpo funcional. A racionalização do trabalho tentou tornar a organização possível, viável, preditiva, atuante sobre cenários projetados e perspectivas que logram meses, ou anos. Ademais, a orientação da organização para os fins/resultados é subordinada à lógica racional que pauta as relações no mercado, estabelecendo a primazia dos fins sobre os meios.

Entretanto, defendemos que a gestão está condicionada ao contexto de atuação, e este nem sempre é redutível a um conjunto de regras e/ou previsões. Como no exemplo supracitado, em algumas organizações os atores são fortemente sujeitos à contingência que envolve a vida humana e seu ambiente. Esse é o cenário que caracteriza a gestão das prisões, e do mesmo modo a uma série de organizações que atuam sobre demandas humanas críticas, cujos objetivos não possam ser guiados por uma lógica meramente instrumental, priorizando os fins sobre os meios. Tais organizações atuam em contextos muito específicos, nos quais a regra nem sempre abarca a complexidade dos fatos que envolvem a gestão; os profissionais agem em situação de violência, risco de morte, catástrofes naturais, tragédias e se deparam com o limite da racionalidade instrumental em que a base para a ação nem sempre estará na regra, ou totalmente alicerçada no conhecimento científico tradicional.

Nesses contextos, as decisões mais importantes se dão pela capacidade humana de agir a partir de múltiplas racionalidades. Esse limite da teoria organizacional é o pressuposto que orientou nosso estudo no artigo em questão. Em busca do ponto onde a contingência do social e do ambiental descortina os limites da racionalidade e da ciência tradicional, o que coloca a gestão organizacional como um exemplo de phrónesis.

A phrónesis foi definida originalmente pela filosofia de Aristóteles como uma capacidade intelectual de ordem prática capaz de auxiliar o homem a tomar a melhor decisão em cada contexto; corresponde à ação baseada na prudência e na sabedoria diante da contingência do mundo. Atualmente, concebemos essa capacidade no âmbito de duas dimensões fundamentais: a ação coletiva — o fluxo das interações —, e a deliberação baseada no contexto. No estudo aqui abordado, constatamos que a partir da phrónesis o indivíduo não delibera exclusivamente sobre os fins, ou os meios para tentar êxito sem sua ação; mas delibera no bojo da ação coletiva, referenciado pela experiência e o contexto, optando assim pela melhor ação possível no cenário vivenciado.

A ciência tradicional da administração, notadamente quando aplicada em grandes organizações burocráticas e/ou do mercado, pode ter retirado em grande parte o protagonismo do homem sobre seu trabalho e o colocado na condição de “funcionário”. Todavia, não retirou a capacidade que ele carrega em si de pensar e agir sob diferentes razões, pautado pelas situações vivenciadas e pelas circunstâncias das interações humanas, na busca de sentido para a sua própria existência.

O limite da razão que se impõe nas organizações acima citadas está no mundo contingente e em profunda crise, gerando demandas sociais e ambientais cada vez mais complexas, como por exemplo, na avassaladora crise sanitária atual. A estreiteza da concepção da racionalidade na ciência tradicional da administração só será ultrapassada a partir da capacidade humana de superar a lógica da razão instrumental, na qual foi muitas vezes condicionado a agir. Deliberando e atuando nem sempre totalmente subordinado a lógica da ciência ou dos fins, mas também a partir de sua própria experiência e habilidade para julgar na situação que se apresenta; assim, ao longo de ciclos sucessivos de experiências e reflexões, perspectivas diferenciadas se abrem para a criação e legitimação de saberes na ciência da administração.

No caso específico abordado pelo artigo, buscamos explorar esse terreno, realizando o estudo e descrevendo as dinâmicas de uma organização prisional.  As situações extremamente críticas enfrentadas pela gestão foram superadas não somente a partir da regra, ou do conhecimento científico instrumental, mas também a partir dos saberes práticos dos agentes penitenciários. O reconhecimento desses saberes engendrou, por sua vez, o reconhecimento definitivo daquela categoria profissional, além dos saberes passarem a ser alvo de sistematização para a formação de novos profissionais.

Por fim, afirmamos que o estudo representa para nós um marco, uma inflexão em nossas tentativas de compreensão da racionalidade. A busca incessante pelo aprofundamento do tema da racionalidade na administração, nos conduz cada vez mais ao campo da ação, deslocando progressivamente o foco da análise do indivíduo em si para a relação com o Outro, para a importância capital das interações e dos efeitos que se desenrolam nas situações vividas

Confira o artigo publicado pelos autores através do link:

http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/cadernosebape/article/view/82427

¹Doutora em Administração. Pesquisadora do Núcleo ORD/UFSC.

²Doutor em Administração. Professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Coordenador do Núcleo ORD/UFSC.

Como citar:
CAITANO, Déris Oliveira; SERVA, Maurício. Considerações sobre o estudo “No limite da razão: o deliberar e a phrónesis no trabalho Prisional”. In: Nuevo Blog, 25 jan. 2021. Disponível em: https://nuevoblog.com/2021/01/25/consideracoes-sobre-o-estudo-no-limite-da-razao-o-deliberar-e-a-phronesis-no-trabalho-prisional/  . Acesso em: ??

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