Segredos

Por Francis Kanashiro Meneghetti

O Daruna é um boneco com nome japonês que tem suas origens na religião Zen Budista. Não irei falar das suas características religiosas ou mesmo místicas. Ele é um boneco para se presentar outras pessoas, não sendo adequado se auto presentear. A pessoa presenteada deve fazer um desejo e pintar um dos seus olhos. Quando o desejo for realizado, deve-se pintar o outro olho como forma de agradecimento. Depois, se o Daruma for de madeira, deve-se queimá-lo. Caso seja de gesso, o mais comum é quebrá-lo e jogá-lo fora.  

O Daruma não é um boneco para realizar desejos, mas um boneco de segredos. O comum é escolher um desejo e não revelarmos para ninguém. Assim estabelecemos um segredo. E ao estabelecermos, aprendemos a vivenciar as turbulências do afeto a partir de desejos que nem sempre controlamos!

Alguns segredos compartilhamos com quem amamos: filhas/os, companheiras/os, pai, mãe, etc. Outros com nossos amigos. Alguns segredos só com nós mesmo. Muitos, nem mesmo conosco. Pelo menos com o nosso eu consciente.

Têm segredos que compartilhamos com estranhos, sobretudo aqueles que temos quase certeza que não veremos mais. Outros compartilhamos com colegas de trabalho, apesar de ser sempre um risco maior do que imaginamos por causa do ambiente competitivo das organizações.

Existem segredos profissionais, familiares, associados à sexualidade. Os segredos podem ter gradações diferentes. Podem ser importantes ou banais. Existem os que duram pouco tempo, por um tempo, muito tempo, um instante ou mesmo uma vida inteira. Alguns se apresentam como pequenas mentiras, delitos ou moralmente questionáveis pela sociedade ou por nós mesmos. Outros, na forma de boas ações e intenções. Estes raramente queremos que dure pouco tempo, afinal como gostamos de parecer melhores do que realmente somos!

Mantemos nossos segredos para sustentar nossa aparência, para não assustarmos as pessoas, para ganharmos vantagens em relação aos outros. Para alimentarmos nosso ego, para estabelecermos relações de afetividade, para instituirmos relações de poder a partir de interesses.

Um segredo só existe quando um outro se apresenta. Pode ser uma pessoa, um pequeno grupo, mas nunca um coletivo-massa. Ou também, algum outro de nós mesmo! Os segredos que limitamos à nos mesmos são os mais necessários, pois estabelecem a possibilidade da reflexão, da realização dos desejos mais estranhos, das intenções e interesses mais íntimos que nos abriga.

Mas quem tem só tem segredos compartilhados com os outros, não conhece seus próprios desejos, não vive sua intimidade. Quem só tem segredos consigo mesmo, não confia em ninguém e vive uma solidão arrebatadora. Os segredos são sempre uma dialética entre o eu e o outro, que pode ser efetivamente na existência de outra pessoa ou no eu que sempre se transforma quando estabelecemos novos segredos.

Os segredos mais amedrontadores e prazerosos são aqueles que tentamos esconder de nós mesmos. São os reprimidos no nosso inconsciente. São os que têm origem em Eros e Thanatos. Esses são enigmáticos. Nos levam facilmente ao prazer e ao sofrimento, ou os dois estranhamente juntos. São aqueles ligados as nossas fantasias, nossas ilusões, nossos desejos de sermos diferentes do que aparentamos ser. Nossos melhores segredos são aqueles cujas raízes estão nas sensações, na instituição de imaginários que estão muito além de atos racionalizáveis. Nossos melhores segredos são aqueles que despertam o pior no melhor ou o melhor no pior de nós na existência do outro.

Ninguém é capaz de contar plenamente seus segredos para os outros. As palavras que escolhemos instituem imaginários que ocultam involuntariamente os verdadeiros desejos que temos. Assim, um segredo é um labirinto de espelhos. Ao escolhermos um dos vários caminhos possíveis, jamais saberemos se os que não foram escolhidos eram apenas uma ilusão ou um caminho melhor a ser seguido. Ao retornarmos ao mesmo lugar, dificilmente reconhecemos ele, pois nossa própria imagem não se apresenta mais como a mesma de tempo atrás. Um segredo é um momento dinâmico que sobrevive porque não queremos achar a saída no labirinto de espelhos. Quanto mais brincamos com as imagens neles, mais aproveitamos nosso segredo. Para que ele continue a ser o que desejamos, temos apenas que cuidar para não quebramos os espelhos.

Os espelhos refletem várias possibilidades da vida. É importante aprendermos a olhar para nossos segredos projetados nos espelhos e estabelecermos uma relação de sinceridade com nossos desejos.

É preciso ter coragem para fazermos o que desejamos no labirinto de espelhos. Quem se sente confortável em comer solitariamente, falar e chorar sozinho, escrever e não publicar, masturbar-se, sonhar ao dormir, mentir como forma de auto-engano vive alguns segredos que a humanidade exige. Quem não é capaz de estabelecer segredos, está subjetivamente comprometido. Ter segredos é estar confortável consigo mesmo. É se aceitar. É preservar a capacidade de sonhar. É ter esperanças. Ter segredos é estar vivo!


Francis Kanashiro Meneghetti é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade e no Programa de Pós-Graduação em Administração pela Universidade tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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