A pandemia de Covid-19 a partir dos Estudos Organizacionais

Ana Carolina Julio¹

Letícia Dias Fantinel²

A eclosão da pandemia de Covid-19 deixou mais evidentes problemáticas sanitárias, ambientais, políticas, econômicas, etc., que permeiam formas de organização humana contemporâneas[i]. Assim, é possível compreender o fenômeno como processo e produto de um contexto profundamente conectado a dimensões ecológica, política, econômica e social, o que Morin e Blin (2020[ii]) chamariam de policrise. Argumentamos, como Silva e Lopes (2020[iii]), que a pandemia é produzida por complexos entrelaçamentos, que a caracterizam muito além de um elemento da natureza que irrompe sobre a sociedade humana, uma enfermidade amplamente disseminada, uma causalidade, ou, ainda, um desastre natural inevitável. E pensamos que os Estudos Organizacionais podem contribuir na compreensão desses entrelaçamentos em alguns termos que propomos aqui.

Nesse âmbito, gostaríamos de destacar as relações organizadas entre humanos e outros modos de existência. O surgimento e as implicações da pandemia estão profundamente ligadas às formas como humanos e não-humanos entram em contato, frequentemente mediadas por processos organizativos: desmatamento, avanço sobre áreas silvestres; agricultura e pecuária industrializadas, comércio de animais silvestres, perda da biodiversidade, mudanças climáticas, etc. Isso vem possibilitando sistematicamente a (re)produção e proliferação de diferentes doenças (não apenas, mas também virais), abrindo espaço para a (re)introdução de vírus na sociedade[iv], Trata-se de um complexo fenômeno multiespécie, em que a Covid-19 emerge da interação de forças políticas, econômicas e ecológicas que propiciaram eventos de mutação e recombinação genética a partir do contato entre espécies[v].

Não podemos dizer que estamos diante de algo novo, ainda que a pandemia tenha tomado proporções sem precedentes nas últimas décadas. Não obstante, a partir da década de 1990 uma série de surtos das chamadas “doenças emergentes” – Ebola, SARS, gripe aviária, gripe suína, febre do Nilo, MERS – já permitiam evidenciar as complexidades ecológicas envolvidas nas epidemias. Trata-se de complexidades em geral invisibilizadas pelo paradigma biomédico, concentrado numa lógica tecnicista – que estabelece que os fenômenos são mais bem compreendidos quando descontextualizados[vi] –, de localização de agentes causadores e desenvolvimento de recursos terapêuticos específicos. Tal lógica obedece uma retórica de guerra dos humanos contra doenças e patógenos, presente no imaginário militarista e colonial[vii], embasa a resposta a doenças como dengue, zika e chikungunya, não problematizando suas condições de produção e centrando-se em ações de “combate ao mosquito”[viii].

Entendemos que é possível pautar a produção de conhecimento acadêmico, com ênfase em Estudos Organizacionais – campo a partir do qual atuamos e produzimos – que rompa com um pensamento ontologicamente dualista. Embasamo-nos nas críticas tecidas por Ingold (1995[ix]) e Latour (1994[x]) ao pensamento moderno ocidental sobre as cisões clássicas entre natureza e cultura, humanos e outros animais, etc. Assim como Willerslev (2015[xi]), percebemos uma forte relação entre a cisão cartesiana entre mente e mundo e a inseparabilidade ontológica entre a realidade humana e o mundo.

Fundamental para isso é refletir que noções como natureza e cultura, por exemplo, não são realidades universais e absolutas, mas formas particulares de compreensão e experiência do mundo criadas pela modernidade ocidental, que embasam, inclusive, cisões epistemológicas entre as ciências da natureza e da sociedade[xii]. Propomos que essas fronteiras sejam problematizadas em face da multidimensionalidade da pandemia, de forma que a Administração e os Estudos Organizacionais possam abordar o organizar multiespécie das complexas malhas de práticas sobrepostas – (não) ditos e (não) feitos organizados[xiii] – que estão imbricadas em um contexto socioeconômico e histórico, persistem ao longo do tempo, e se entrecruzam na produção não apenas da Covid-19, mas também de outras doenças.

Trata-se, portanto, de práticas e processos organizativos sobrepostos que podem ser analisados em diferentes camadas[xiv]: práticas e processos organizativos de produção e consumo;  de interação com o ambiente; (falta de) acesso de populações humanas a condições materiais de existência, água, serviços de saúde, etc; gestão organizacional, entre muitas outras.

Para a compreensão desse organizar multiespécie, é fundamental descentrar a discussão do combate ao agente, direcionando a atenção a outras condições que propiciam a proliferação de doenças, extrapolando o domínio do biológico[xv]. Um exemplo de análise que evidencia as complexidades é o caso da dengue, cujo modelo de combate vetorial da larva do mosquito e uso de venenos apresentou pouco resultado nas décadas de sua utilização[xvi]. O que se tem são programas centrados no mosquito, em vez de mudanças na constituição dos agrupamentos urbanos que abrem caminho para a doença[xvii].

Entendemos, portanto, que a pandemia de Covid-19 imbrica-se numa malha de práticas que revela conexões entre humanos, outros modos de existência e elementos sociomateriais. No âmbito dos humanos, é preciso evidenciar a heterogeneidade da categoria, compreendendo que desigualdades e opressões entre os membros de nossa espécie são ainda mais agravadas no contexto pandêmico. Os elementos sociomateriais estão evidentes por meio de tecnologias (in)disponíveis, como testagem para a doença, respiradores, medicamentos, vacinas, água encanada e materiais para higiene, hospitais, leitos de UTI, etc. Ainda, a relação com outros modos de existência se destaca na própria emergência do “novo coronavírus” (Sars-CoV-2), já que, por mais que se saiba da transmissão zoonótica, ainda não foi possível mapear o hospedeiro intermediário que facilitou a transferência para humanos[xviii]. Nesse sentido, compreendemos que o campo de Estudos Organizacionais tem muito a contribuir para a apreensão do fenômeno da pandemia em sua complexidade.

Referências:

[i] SANTOS, B. S. A cruel pedagogia do Vírus. São Paulo: Boitempo, 2020.

[ii] MORIN, E.; BLIN, S. Ressentir plus que jamais la communauté de destins de toute l’humanité. Libération, 2020.

[iii] SILVA, A. F. C.; LOPES, G. A pandemia de novo coronavírus e o Antropoceno.Agência Fiocruz de Notícias, p.1–5, 2020.

[iv] Ver em  https://portal.fiocruz.br/video/desmatamento-e-o-risco-de-novas-epidemias-como-covid-19. 2020.

ELLWANGER, J. H.; et al. Beyond diversity loss and climate change: Impacts of Amazon deforestation on infectious diseases and public health. Anais da Academia Brasileira de Ciências, v.92, n.1, 2020.

[v] KIRKSEY, E. The Emergence of COVID-19: A Multispecies Story. Anthropology Now, v.12, n.1, p.11–16, 2020.

[vi] DAVIS-FLOYD, R. The technocratic, humanistic, and holistic paradigms of childbirth. International Journal of Gynecology & Obstetrics,v.75, p.5-S23, 2001.

JÚLIO, A. C. Para Além do Parto- A Manutenção-Mudança das Práticas Obstétricas. 143f. Tese de Doutorado, UFES, Vitória, 2019.

[vii] Idem item v.

[viii] SEGATA, J. A doença socialista e o mosquito dos pobres. Iluminuras, v.17, n.42, p.372–389, 2016.

[ix] INGOLD, T. Humanidade e animalidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.10, n.28, p.39–53, 1995.

[x] LATOUR, B. Jamais Fomos Modernos. Editora 34, 1994.

[xi] WILLERSLEV, R. A Antropologia está levando o animismo a sério demais? R@u – Revista de Antropologia da UFSCar, v. 7, n.1, jan./jun. 2015, p. 17–36.

[xii] DESCOLA, P. Modes of being and forms of predication. HAU: Journal of Ethnographic Theory, v.4, n.1, p.271, 2014.

[xiii] SCHATZKI, T. R. On organizations as they happen. Organization Studies, v.27, n.12, p.1863-1873, 2006

[xiv] HUI, A.; SCHATZKI, T.; SHOVE, E. The nexus of practices: connections, constellations, practitioners. Routledge, 2017.

JÚLIO, A. C. Para Além do Parto- A Manutenção-Mudança das Práticas Obstétricas. 143f. Tese de Doutorado, UFES, Vitória, 2019.

[xv] FANTINEL, L. D. Agências Mais que Humanas: o Organizar Multiespécie da Cidade. Anais do VI CBEO, 2019.

[xvi] TORRES, R. “É um programa perdulário, ineficaz e perigoso”: O Brasil está fazendo tudo errado no combate a doenças transmitidas por mosquitos? Entrevista com Lia Giraldo. Disponível em: <https://outraspalavras.net/outrasaude/2990/&gt;. Acesso em: 14 jan. 2019.

[xvii] Idem item x.

[xviii] LAM, T. T. Y. et al. Identifying SARS-CoV-2-related coronaviruses in Malayan pangolins. Nature, p.1–4, 2020

¹Doutora e mestre em Administração pela Universidade Federal do Espírito Santo, bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Professora no Departamento de Gemologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

²Doutora em Administração pela Universidade Federal da Bahia, mestre e bacharel em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora no Departamento de Administração e no Programa de Pós-graduação em Administração da Universidade Federal do Espírito Santo.

Como citar:
JULIO, Ana Carolina; FANTINEL, Letícia Dias. A pandemia de Covid-19 a partir dos Estudos Organizacionais. In: Nuevo Blog, 15 set. 2020. Disponível em: https://nuevoblog.com/2020/09/15/a-pandemia-de-covid-19-a-partir-dos-estudos-organizacionais/ . Acesso em: ??

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